Desobedeça, por Augusto de Franco

Texto genial para uma reflexão de começo de ano: Desobedeça, de Augusto de Franco, tirado da Escola de Redes. Não resisti e coloquei o material integralmente aqui. Aproveitem!

"Relações hierárquicas, relações de subordinação, que exigem obediência, baseiam-se na negação do outro. Agora nos cabe tirar as conseqüências dessa impactante constatação de Humberto Maturana.

Se você quer mesmo aprender a “fazer” redes, então sua primeira “prova” é: desobedeça!Um netweaver é, por definição, um desobediente. Porque é alguém que (desobedientemente) caminha fora dos trilhos (da subordinação).

A quem você deve desobedecer? Ora, a todos que querem obrigá-lo a obedecer. Em especial aos agentes de um velho mundo hierárquico e autocrático:DESOBEDEÇA aos ensinadores, que dizer, à burocracia privatizadora do conhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas e academias.

Essas instituições geraram e continuam gerando um tipo curioso de agente que proliferou na modernidade: o colecionador de diplomas, que julga as outras pessoas pela sua capacidade de se enquadrar nos processos de ensinagem em vez de avaliá-las pela sua capacidade de aprendizagem.

Os diplomas são então um reconhecimento e uma validação do conhecimento ensinado e não do conhecimento aprendido. Tendo perdido o monopólio do conhecimento (se é que algum dia tiveram-no) as universidades tentam ainda reter em suas mãos o que lhes restou: o monopólio dos diplomas.Há também os que – por fora dos sistemas formais de ensino - se intitulam (ou são por alguém intitulados) mestres.

Alguns são ordenados para tanto, quer dizer, têm reconhecida por alguma organização hierárquica sua capacidade de reproduzir uma determinada ordem top down. E querem então imprimi-lo, emprenhá-lo, ou seja, enxertar suas idéias-implante em você, para que você se torne também um transmissor dessa ordem-virus.

Desobedeça a esses caras. Aprenda o que você quiser, quando quiser e do jeito que você quiser. Aprenda com seus amigos. E compartilhe o que aprendeu com quem você quiser, gerando mais conhecimento. Guarde seus conhecimentos nos seus amigos, não na cabeça dos professores, nas instituições que vivem para trancar o conhecimento e que estabelecem um caminho obrigatório cheio de barreiras e permissões para acessá-lo, ou nos livros submetidos à normas de copyright. Conhecimento trancado apodrece.

E não siga mestres de qualquer tipo: todos somos aprendentes. ‘Quando o “mestre” está preparado o discípulo desaparece’, quer dizer, ele não precisa mais da muleta do discípulo: pode se tornar, por si mesmo e em interação com outras pessoas, um aprendente, livre... e tão ignorante como todos nós. Mas enquanto eles estiverem pensando em conquistar discípulos, fuja dos “mestres”!
DESOBEDEÇA aos codificadores de doutrinas, que são todos aqueles que querem pavimentar, com as suas crenças religiosas (mesmo quando se declaram laicas), uma estrada para o futuro. Eles produzem narrativas ideológicas totalizantes para que você veja o mundo a partir da sua ótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundos existentes, mas apenas um mundo (o mundo inventado e administrado por eles: uma prisão para a sua imaginação).

Quando religiosos, os codificadores de doutrinas fornecem a justificativa para a ereção de igrejas e seitas. Quando políticos, urdem a base conceitual para a formação de correntes e grupos de opinião onde a (livre) opinião propriamente dita não conta para quase nada: o que conta é a ortodoxia de uma opinião oficial ou canônica, a qual tentam autenticar apelando para a revelação ou para a ciência.

Em todos os casos são engenheiros meméticos, manipuladores de idéias que inventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros) para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para levá-lo (a sua alma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um paraíso no céu ou na terra, quando, eles mesmos, não podem conhecer tal caminho (simplesmente porque não existe um caminho).
Desobedeça a essa gente. Não entre em suas armações, não replique seus discursos: pense com sua própria cabeça. Ria dos seus vaticínios e ameaças e ponha-se fora do alcance de suas patrulhas. Saia dos trilhos que eles assentaram, escape das valetas (os pré-cursos) que eles cavaram para fazer escorrer por elas as coisas que ainda virão: faça o seu próprio caminho.
DESOBEDEÇA aos aprisionadores de corpos, que não contentes em usar, comprar ou alugar, sua inteligência humana (que não tem preço), querem também mantê-lo cativo, fisicamente, nos seus prédios ou cercados. São feitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relógio ou o livro de ponto, o crachá magnético ou o banco de horas. Nas empresas ou organizações hierárquicas, sejam privadas ou públicas, seqüestram seu corpo para manter você por perto, para poder vigiá-lo, para terem certeza de que você está de fato trabalhando para eles (que coisa, heim?). Não precisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalho coletivo compartilhado.

Mas o objetivo deles não é, na verdade, compartilhar nada com outros seres humanos e sim controlá-los-e-comandá-los, em certo sentido desumanizá-los, embotando sua inteligência, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, para poder usá-los como objetos, para terem-nos disponíveis, sempre à mão, tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontidão para lhes fazer as vontades.

Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e não para-eles não seria necessário – na imensa maioria dos casos – aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, com tarefas e prazos.

Desobedeça a esse pessoal. Monte seu próprio empreendimento individual ou coletivo compartilhado, empresarial ou social. Corra atrás do seu próprio sonho ao invés de servir de instrumento para realizar o sonho alheio. Sim, você é capaz.

A evolução investiu quatro bilhões de anos desenvolvendo seu hardware, que é igualzinho ao daquele cara esperto que quer capturá-lo e aprisioná-lo e que ainda por cima tem a desfaçatez de alegar que está fazendo um bem para a humanidade por lhe oferecer um emprego.

DESOBEDEÇA aos construtores de pirâmides, que são os que erigem organizações hierárquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrigá-los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seu consentimento ou assentimento ativo. Desobedecer significa também abrir mão de mandar. Você é capturado pelo jogo perverso da obediência quando quer que as pessoas lhe obedeçam.
Desobedeça a esses chefes, em primeiro lugar, cortando o barato daquele construtorzinho de pirâmide que mora aí dentro de você: não faça patotas, não erija igrejinhas. Sim, é muito difícil resistir à tentação de juntar “os seus” e separá-los “dos outros”, mas – para quem quer fazer redes – é absolutamente necessário.

E, sobretudo, abra mão de querer mandar nos outros. Em vez de arquitetar organizações tradicionais para realizar qualquer projeto ou trabalho, teça redes: quase tudo que se organizou até agora de forma hierárquica (com estrutura centralizada) pode ser organizado em forma de rede (com estrutura distribuída); menos, é claro, os sistemas de comando-e-controle.
Em segundo lugar, não se enquadre docemente em sistemas de comando-e-controle. Se for obrigado a tanto para sobreviver, por um período (que não pode ser muito longo, do contrário você estará bloqueando seu desenvolvimento humano), faça-o resignadamente, mas sempre resistindo. Isso significa: não se curve a seu chefe, não lhe faça as vontades, vamos dizer assim, tão solicitamente.

Não seja tão prestativo, subserviente, serviçal. Não caminhe um quilômetro a mais para agradá-lo. Não fique na penumbra, recuado, servindo de escada para ele subir ou se destacar. Não faça o jogo. Não entre no jogo.
DESOBEDEÇA aos fabricantes de guerras, que são, stricto sensu, os chefes militares e, lato sensu, os que pervertem a política como arte da guerra e os que se entregam à competição adversarial tendo como objetivo destruir seus concorrentes. São, todos, predadores. O predador é uma máquina de converter o semelhante em inimigo. Não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade é circunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro no próprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação.

Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos.O predador é um produto da quebra da unidade sinérgica do simbionte (que poderemos ser no futuro, se o anteciparmos). Preda porque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, num ritual antropofágico em busca da unidade perdida (aquela origem que é o alvo, para usar a expressão de Karl Kraus). É por isso que nos apegamos tanto à guerra do bem contra o mal.

Mas o problema, como disse Schmookler, é que o recurso da guerra é em si o mal.
Desobedeça a esses hierarcas. Recuse-se a entrar em organizações militares ou para-militares de qualquer tipo. Recuse-se a entrar em qualquer organização política de combate, que pregue que o bem só será alcançado com a destruição do mal. Recuse-se a olhar o diferente como adversário em princípio: em princípio todo ser humano é um potencial parceiro de outro ser humano, não um inimigo. Recuse-se a construir inimigos. Recuse-se a entrar em organizações que elegem inimigos para ser eliminados, física, econômica, psicológica ou politicamente.

A ética do netweaver é uma ética do simbionte, não do predador. Adote um comportamento pazeante para não cair na armadilha de travar uma guerra contra o mal, pois, assim procedendo, você mesmo estará gerando o mal ao construir inimigos em vez de fazer amigos, quer dizer, de fazer redes.
DESOBEDEÇA aos condutores de rebanhos, que são, em geral, os líderes que alcançaram popularidade pelo broadcasting para guiar as massas. Algumas vezes esses líderes são carismáticos e se dedicam a mesmerizar multidões em comícios, reuniões e manifestações. Ou pela TV e pelo rádio. Quase sempre são pessoas “pesadas”, que usam sua gravitatem em benefício próprio ou de um grupo, para reter em suas mãos o poder pelo maior tempo que for possível, transformando os outros em seus satélites. E odeiam os princípios de rotatividade ou alternância democrática.

Considere que, do ponto de vista social (ou coletivo, da rede), o modo intransitivo de fluição que gera o fenômeno da popularidade do líder de massas é uma sociopatia.

O liderancismo é uma praga que vem contaminando as organizações de todos os setores: segundo tal ideologia não se deve estimular a multi-liderança, senão afirmar a precedência da mono-liderança, do líder providencial e permanente, a prevalência do mesmo líder em todos os assuntos e atividades, como se essa – a liderança – fosse uma qualidade rara, de origem genética ou fruto de uma unção extra-humana.
Desobedeça a esses líderes. Não os siga para parte alguma. Não se deixe conduzir, ser puxado pelo nariz ou guiado pelo cabresto como se fosse uma cavalgadura. Não existem guias geniais dos povos. Nos sistemas representativos, as pessoas que você elegeu são seus empregados (mandatados pelos eleitores), não seus patrões.
Arrebanhamentos e assembleísmos são o contrário da interação humanizante entre as pessoas: transformam gente em gado, em contingente moldável e manipulável. Pule fora desse rebanho. “Inclua-se fora” dessas listas de excluídos que ficam olhando para cima de boca aberta, esperando pelas benesses de um salvador (pois o simples fato de pertencer a elas já é um indicador de exclusão, quer dizer, de incapacidade de pensar por si próprio e de andar com as próprias pernas).

Toda pessoa, se estiver disposta a desobedecer, será um alguém (com nome reconhecido) fora da massa, não um número numa estatística. Toda pessoa que desobedece, em um mundo ainda infestado por organizações hierárquicas, é um ponto fora da curva: alguém único, singular, insubstituível como você.
De uma maneira geral, você nunca deve obedecer a pessoas, sejam elas quais forem. Dizendo de uma forma ainda mais ampla: você nunca deve obedecer a nenhuma individualidade real ou imaginária, humana ou extra-humana, seja ela qual for.
VOCÊ DEVE DESOBEDECER ÀS LEIS?

Freqüentemente surge uma objeção: mas se as pessoas não obedecerem às normas da vida civilizada será o caos. Por isso, todos devem respeitar as leis.Será mesmo? Depende. Você não deve, por certo, romper com os pactos livremente celebrados por uma sociedade e que foram transformados em leis em um processo democrático.

Dizer que a democracia é o império da lei significa dizer que não ela não é o império de pessoas. Obedecer às leis significa, então, não-obedecer a pessoas. Mas isso depende do processo que fabricou as leis.Você não tem obrigação moral de obedecer às leis das ditaduras. Assim, leis de exceção podem ser desobedecidas. Por princípio, elas não têm qualquer legitimidade.

A legitimidade é o resultado da confluência de vários critérios democráticos: a liberdade, a publicidade, a eletividade, a rotatividade (ou alternância), a legalidade e a institucionalidade. Sim, não basta alguém ter sido eleito para ter legitimidade.Tais critérios – ou alguns deles – são violados não somente pelas ditaduras clássicas, mas também por protoditaduras e, ainda, se bem que em menor escala, por democracias parasitadas por regimes manipuladores.

Você mesmo avaliará até onde vão as normas estabelecidas por processos que violam os critérios acima. Se achar que violam, desobedeça-as. E esteja preparado para arcar com as conseqüências, é claro.Um princípio geral da ética do simbionte poderia ser: o único objetivo realmente humano (e humanizante) das leis é assegurar a convivência pacífica das pessoas em uma sociedade. Todo o resto é o resto.

VOCÊ DEVE DESOBEDECER AOS DIRIGENTES DAS ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS A QUE PERTENCE?

Eis aqui outra questão recorrente. Liminarmente, você não deve pertencer a organizações que não tomam a democracia como um valor.Ora, com exceção das leis democraticamente aprovadas, a democracia não pode aceitar que alguém faça alguma coisa que não quer ou deixe de fazer alguma coisa que quer em virtude de sanção ou ameaça de sanção proveniente de instância hierárquica.

Portanto, respeitado o pacto de convivência, é legítima a desobediência política e ninguém é obrigado a acatar uma decisão com a qual não concorde ou mesmo concordando não queira acatar, por medo de sanção, ainda que tal decisão tenha sido tomada por maioria. Obediência nada tem a ver com colaboração, que pressupõe adesão voluntária, seja por concordância, seja por resultado de convencimento ou por livre assentimento.

Assim, em coletivos políticos de adesão voluntária, nenhum tipo de disciplina deve ser imposto e nenhum tipo de obediência deve ser exigida dos participantes, além daquelas às regras a que voluntariamente aderiram. Nenhum tipo de sanção pode ser imposta aos participantes, nem mesmo em virtude do descumprimento das regras a que voluntariamente aderiram. Todos têm o direito de não acatar decisões.

Ordem, hierarquia, disciplina e obediência, vigilância (ou patrulha) e punição; e fidelidade imposta top down, são virtudes de sistemas autocráticos. Nada disso tem a ver com a democracia. Quanto mais autocrática for uma organização, mais ela insistirá na exaltação de tais “virtudes”. As razões para isso são tão claras que dispensariam comentários. Todas as organizações não-estatais e não baseadas em contratos (de trabalho ou de prestação de serviços) são (ou deveriam ser) constituídas por adesão voluntária. Em organizações voluntárias, obedece quem concorda. Querer exigir disciplina e obediência em relações sociais (stricto sensu) é um absurdo.

Impor sanções para quem não obedece é uma violência e, como tal, um comportamento antidemocrático.Organizações que visem chegar à (ou praticar a) democracia (no sentido “forte” do conceito), não podem se organizar autocraticamente para atingir seus fins. Não existe caminho para a democracia a não ser a democratização contínua das relações; ou, parafraseando Mohandas Ghandi, não existe caminho para a democracia: a democracia é o caminho...

VOCÊ DEVE DESOBEDECER AOS SEUS PATRÕES?

Outra objeção freqüente é a obediência àquele que paga o seu salário: como você pode não obedecer aos seus patrões se tem que sobreviver?
Uma boa regra geral seria: nunca trabalhe para alguém e sim com alguém. Todas as coisas podem ser feitas em parceria. A obediência não é necessária.Mas é você quem decide. Quanto mais você trabalha para alguém, menos alguém você é. O espírito de liberdade é a fonte de toda criatividade! Para sentir esse sopro criador só há uma via: desobedeça!
Você não concorda e querem que você faça assim mesmo? Desobedeça! Uma pessoa vale muito mais do que a bosta de um emprego.

É preciso considerar que a organização piramidal trabalha para o cume. Ela trabalha para o centro, para o chefe, para o líder. E as pessoas que trabalham em geral não aparecem, pois seu papel precípuo é o de fazer o chefe aparecer. Aí o chefe fica contente e mantém tais pessoas nas suas funções (empregadas ou contratadas). Se o chefe ficar muito contente com o resultado, pode até retribuir com uma promoção do "colaborador" que lhe fez tão bem as vontades.

Ocorre que quando um conjunto de pessoas aplica seus talentos para promover uma atividade, todas as pessoas devem aparecer. Para quê? Ora, para poder ser reconhecidas, para poder compartilhar, aumentar e desenvolver esses talentos.

Essa é uma característica central daquele tipo de inteligência tipicamente humana de que falava Humberto Maturana: uma inteligência que cresce e se realiza com a troca, com o jogo ganha-ganha, com a colaboração. Uma inteligência colaborativa.

Se as pessoas abrem mão de fazer isso em prol da projeção de outras pessoas que estão acima delas na estrutura hierárquica, elas estão renunciando, em alguma medida, a exercer suas qualidades propriamente humanas. O diabo é que os funcionários burocráticos e outros empregados ou prestadores de serviços em organizações hierárquicas já introjetaram tão fundo as idéias que sustentam tais práticas, que o hábito, já não diria de servir, mas de ser serviçal, se instalou no andar de baixo da sua consciência e emerge como uma pulsão.

Freqüentemente eles se escondem para promover seus superiores, tendo medo, inclusive, de proferir uma opinião própria em uma reunião, escrever um artigo em um blog, dar uma entrevista ou gravar um vídeo para um meio de comunicação. Essas pessoas até se orgulham de habitar a penumbra e se vestir de cinza, adotando a servidão voluntária e, com isso, violando sua própria humanidade ou, no mínimo, deixando de explorá-la e desenvolvê-la como poderiam.

Alguns fazem isso conscientemente, em troca do emprego ou da contratação. Argumentam que se não obedecerem e fizerem a vontade dos chefes, perderão a remuneração sem a qual não terão como viver. Mas dá no mesmo. Se, para sobreviver, uma pessoa precisa castrar suas potencialidades, então tal sobrevivência não poderá ser digna. Um trabalho que deixe de promover o desenvolvimento humano de quem trabalha não pode ser digno.

Os chefes, por sua vez - como aquele senhor de escravo, escravo do escravo, a que se referia Hegel, em outros termos - também estão aprisionados neste círculo desumanizante. Estão intoxicados pelas ideologias do comando-e-controle e do liderancismo, segundo as quais se não for assim, as coisas não funcionam. De que alguém tem sempre que liderar - quer dizer, deixando a frescura de lado e traduzindo em bom português: mandar nos outros - para que uma ação possa ser realizada a contento. Por isso não se adaptam à cultura e à prática de rede, onde não é possível mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade.

É por isso que organizar as coisas em rede distribuída é um desafio tremendo em um mundo ainda infestado, em grande parte, por organizações hierárquicas.Quando organizações hierárquicas se interessam por redes, quase sempre esse interesse é instrumental. Querem usar as redes para obter alguma coisa que fortaleça os seus objetivos e a manutenção das suas estruturas... hierárquicas!

Seus chefes – e isso quando mais ilustrados – acham que usando as "tecnologias de rede" vão conseguir aumentar sua influência, seu poder ou, quem sabe, suas vendas (daí todo esse súbito interesse cretino pelo tal "marketing viral", de resto uma vigarice).

As organizações hierárquicas - em termos do ser coletivo que se forma, diga-se: não, é claro, das pessoas que as integram - não vêem as redes como fim, como uma nova forma de interação propriamente humana ou humanizada pelo social, e sim como meio para alguma coisa não-humana. Sim, organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos. A afirmação é forte, mas não há como dizer de outro modo se quisermos ir ao coração do problema.

Entenda-se bem: as pessoas continuarão sendo humanas, mas o ser coletivo que se forma não será, posto que não será 'social' (naquele especialíssimo sentido que Maturana empresta ao termo).

QUEBRANDO O CÍRCULO VICIOSO DO PODER

Em que medida você tem coragem de desobedecer e arcar com as conseqüências? A resposta a essa pergunta define o seu campo de liberdade e de possibilidade.Dependendo das circunstâncias, desobedecer pode acarretar demissão, reprovação, agressão, perseguição, condenação, prisão, tortura, mutilação e morte. Você não deve se suicidar.

Quando não há condições objetivas para desobedecer (ou seja, quando isso colocar em risco a sua vida ou a vida de terceiros, a sua liberdade ou a liberdade de seus semelhantes) você deve avaliar cuidadosamente os riscos e as possibilidades. Mas nunca deve deixar de desobedecer interiormente. O que importa aqui é sua atitude, vamos dizer assim, espiritual, de desobediência.

Não se curve, não se abaixe, não se deixe instrumentalizar, não se conforme em ser mandado, não colabore (voluntariamente) com o poder vertical. Desobedecer é, antes de qualquer coisa, resistir.Quando você resiste ao poder vertical, você estabelece uma sintonia com as grandes correntes de humanização do mundo.

Quando você cede, sujeitando-se a alguém ou sujeitando outras pessoas a você (no fundo, dá no mesmo), contribui para desumanizar o mundo e a você mesmo.O mais importante é: não faça um pacto com a morte. Sim, toda vez que você vende sua alma, sujeitando-se a alguém ou toda vez que você sente um ímpeto de controlar alguém, é sinal de que uma pulsão de morte está irrompendo na sua vida.Se organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos, ao obedecer voluntariamente aos chefes, enquadrando-se nas dinâmicas dessas organizações, você está, na verdade, subordinando-se a seres não-humanos.

Ordem => hierarquia => disciplina => obediência => +ordem => <=...
Eis é a seqüencia maligna, o círculo vicioso que deve ser quebrado pela saudável desobediência".

40 horas para virar jornalista

Anúncio de um site de cursos on line promete ao internauta que ele vire um jornalista em 40 horas.

No conteúdo, nada de ética, compromisso com leitores ou com as causas sociais que o comunicador poderia nortear seu trabalho. Apenas coisas do gênero "ganhando dinheiro no ramo de Jornalismo On-Line" e "ferramentas úteis da tecnologia".

Apesar do decreto-lei que derruba a obrigatoriedade do diploma de jornalista já ter mais de seis meses, até hoje me perguntam o que eu, como jornalista, acho disso para a profissão. A última foi semana passada, no Aeroporto de Salvador. O que eu respondo?

Acho ruim quando consideram qualquer pessoa que faz um curso on line de 40 horas, ou que escreve um blog, apta a ser um jornalista profissional. Assim como também não considero jornalista aquele que está no primeiro ou no segundo ano da faculdade e já se acha melhor do que muitos professores. Jornalismo não se aprende de um dia pra noite, não basta apenas pensar que "escrevo bem e pronto", é um exercício diário de reflexão e cuidado.

Demora ser um bom jornalista, assim como demora ser um bom médico ou professor. Não é (só) o diploma que vai fazê-lo melhor, mas a vivência, o dia-a-dia. Mas também não acredito que vivência é suficiente, se o objetivo da mídia em questão, seja blog ou seja jornal, for ganhar dinheiro com anúncios.

Relembrando o relator Gilmar Mendes (relembre a notícia sobre o decreto-lei clicando aqui), não basta ter diploma para evitar notícias mentirosas... é por isso que, na contramão de muitos colegas, não estou preocupada com essa coisa de diploma. Acredito no poder de comunicação das pessoas - por isso tornei-me educomunicadora - e espero sempre ir na contramão do mercado - não pensando que supostamente o jornalismo pode dar dinheiro, como promete o site, mas lembrando que ele pode, e deve, ajudar a sociedade a mudar um pouquinho.




Artigo: o blog e a identidade da escola

Texto "emprestado" do professor Franz Pereira, do blog Minha Rua, lá do Pará, sobre a tecnologia a serviço da educação.

Nunca é demais lembrar que o contexto sugerido pelo professor nem sempre é o que se observa em muitas escolas Brasil afora. Salas de informática com educador especializado, atendendo a professores e alunos, não é realidade ainda.

Em várias localidades (caso de Prado, no Extremo Sul da Bahia, onde morei ano passado), os computadores já chegaram e continuam encostados dentro de uma sala improvisada. Ou monitores são jovens "estagiários" que passam o dia jogando cartas, de um lado, e de outro, os professores não fazem a menor idéia do que fazer com essas máquinas - a não ser digitar um texto aqui, outro acolá...

Enfim, aos poucos essa realidade vai mudando, por iniciativa pública, de diversos municípios, parcerias com organizações do terceiro setor etc. Iniciativas heróicas e individuais de alguns professores por aí são louváveis, mas se a informática não for introduzida na educação como uma política pública, e portanto organizada, não vai avançar... boa leitura

O planejamento pedagógico em tempos de educomunicação

Começo de ano é também o começo da jornada pedagógica para milhares depais, alunos e professores. Se de um lado os pais se entregam ao cansativo e dispendioso processo de matrícula, compra de material escolar etc, os professores iniciam o trabalhoso processo deplanejamento pedagógico.

E planejar o trabalho pedagógico é, de todos, o mais significativo momento do processo educacional. Nesse momento, é fundamental ter em mente o papel das Salas de Informática como ambientes tecnológicos de aprendizagem colaborativa; dos computadores em rede, como poderosas ferramentas pedagógicas, e das Tecnologias da Informação e Comunicação-TIC como auxiliares na formação crítica e participativa do sujeito social.

Assim, ao se prepararem para o planejamento, ou para a elaboração doProjeto Político Pedagógico-PPP da escola, a comunidade pedagógica(professores, gestores e técnicos) deve, por dever de ofício, estar atenta para o papel da Informática no processo de construção deconhecimentos.

Nesse cenário, destacamos os Blogues como um dos catalisadores do processo educativo, graças a sua versatilidade e possibilidades multi-inter-transdiciplinares. Mas, ao contrário do que muitos pensam, os blogues não são ferramentas de educação. Os blogues são ferramentas de educomunicação, ou seja, os blogues são formas de educar através de recursos multimidiáticos capazes de integrar a formação escolar, baseada em conteúdos disciplinares, com uma proposta de reflexão e intervenção social a partir da análise, produção e socialização da informação.

Para usar os blogs nessa perspectiva é preciso, antes de tudo, que o educador abandone a práxis tradicional e amplie seus horizontes conceituais e didático-pedagógicos. É necessário desenvolver novas habilidades e competências para empregar as TIC na transmissão de conteúdos de sua disciplina.

Entretanto, durante a formação inicial a Academia não ofereceu formação nessa área, e muitos professores tendem a manifestar uma certa resistência à essa ferramenta. E à mudança comportamental que ela exige...

Talvez por isso muitos professores considerem o planejamento pedagógico como uma obrigação anual onde devem, apenas, preencher um documento exigido pela direção da escola. E em muitos casos ele é uma cópia do anterior.

Todo planejamento é um trabalho de reflexão e de elaboração de ações para resolver as dificuldades enfrentadas ou vindouras. Mas, ao voltar as costas para o potencial educomunicativo da Internet e das ferramentas virtuais de interação e criação de comunidades, como blogues, podcasts (rádio digital), Twitter, facebooks, por exemplo, o planejamento pedagógico da escola não somente mostra-se acrônico, defasado e deficitário de recursos, como também surdo e cego aos gritos e sinais da modernidade.

Esse planejamento não atenderá ao sobjetivos da escola, não satisfará os alunos e nem contemplará as necessidades da sociedade do século XXI.

Atenção cineastas: a II Mostra Nacional de Produção Audiovisual Independente - Circuito Tela Verde, está com inscrições abertas para o envio de videos até o dia 30 de março.

Os filmes devem ser produzidos em processo educomunicativo, ou seja, em conjunto com a comunidade, e devem abordar a temática socioambiental. Além de ongs e produtoras, estruturas educadoras como Salas Verdes, Pontos de Cultura, Coletivos Educadores, bem como redes como Rejuma, Com-Vidas, e escolas também podem participar orientando e encaminhando suas produções. Não importa o material utilizado, se for câmera de celular com boa resolução, já está valendo.

O Circuito Tela Verde é uma mostra nacional de produções audiovisuais sobre experiências de projetos de educação ambiental, opiniões, visões de mundo e modos de vida dos membros de comunidades locais sobre o meio ambiente, os problemas e as responsabilidades ambientais, para exibição em espaços educadores.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), que trouxe a iniciativa do Circuito, filmes "devem servir de subsídio para o debate, trazendo uma importante contribuição para compreender como as comunidades tomam parte nos processos da gestão ambiental pública, bem como estimular suas participações nos processos locais".

Serão selecionadas as produções educomunicativas, com resolução suficiente para exibição em telão e dentro da temática socioambiental. Não haverá premiação, tampouco pagamento para os vídeos produzidos ou selecionados.

Um Termo de Cessão de Direitos para veiculação em trabalhos de educação ambiental, sem fins lucrativos, deverá ser entregue junto com a produção. O Termo estará disponível no blog do Circuito Tela Verde e deverá ser corretamente preenchido e encaminhado assinado pelo autor ou responsável, com firma reconhecida.

Àqueles que optarem pelo encaminhamento online, deverá ser feito por meio dos e-mails http://www.blogger.com/educambiental@mma.gov.br ou http://www.blogger.com/sibea@mma.gov.br, e o Termo de Cessão de Direitos encaminhado para o endereço de correspondência.

Caso o Termo não seja encaminhado, o vídeo será desclassificado. Já os que optarem por encaminhar em formato digital (CD, DVD), deverão enviar o Termo junto com a mídia para: Ministério do Meio Ambiente - Esplanada dos Ministérios - Bloco B - Departamento de Educação Ambiental - CEP: 70068-900 - Brasília, DF.

Dúvidas também podem ser tiradas pelos telefones (61) 3317 1288/1188.

Garotada na cobertura do Campus Party


O Universo On Line que me desculpe, mas reproduzo abaixo notícia sobre a criançada da EMEF Fernando Gracioso, uma das mais ativas de São Paulo nos trabalhos de educomunicação e inclusão digital. Já foram parceiros do Educom Verde na cobertura do Encontro Carta da Terra e Pedagogia na Educação, e agora se preparam para acompanhar o Campus Party, um dos maiores eventos de debates sobre tecnologia e internet do mundo. Na foto, Sara, aluna da escola, em meio aos jornalistas na coletiva com os organizadores do evento (a foto é do blog da escola).
O mérito, claro, é dos alunos que mantém uma rádio virtual, mas ainda do professor Fábio Rogério Nepomuceno, apaixonado por internet, literatura e cinema. E também do Programa Nas Ondas do Rádio, que reconhece como política pública a educomunicação nas escolas municipais paulistanas.

Para quem é jornalista, o divertido é ver essa garotada "trabalhando" melhor do que a gente... ao menos vão com um olhar de curioso, e não de especialista. E o resultado é desconcertante. Parabéns, moçada!

Projeto transforma jovens estudantes em jornalistas na Campus Party 2010
JULIANA CARPANEZ Do UOL Tecnologia

Em uma entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira (14), o diretor-geral da Campus Party, Marcelo Branco, foi questionado sobre a importância das crianças e dos jovens no ambiente virtual. A pergunta não foi feita por um dos jornalistas presentes no evento, mas sim por Sara Souza Ferreira, de 11 anos, que cursará neste ano a 6ª série da escola Fernando Gracioso, em Perus (SP).

Com o colega Rafael Lúcio Magalhães, de 11 anos, Sara foi à entrevista coletiva como participante do projeto Imprensa Jovem, em que crianças e adolescentes de escolas municipais vivem a experiência de serem repórteres.
A iniciativa faz parte do programa Nas Ondas do Rádio, que levará à 3ª edição da Campus Party em São Paulo 150 repórteres mirins de diferentes instituições de ensino. Esse número vem aumentando: em 2009 foram 100 deles e, em 2008, 80.

Entre 25 e 31 de janeiro, semana de realização deste acampamento digital que pretende reunir 6 mil "campuseiros", os jovens estudantes vão divulgar informações via Twitter (com as tags #cparty, #cpartybrasil2010 e #alunoreporter), nos blogs de suas escolas (o da Fernando Gracioso pode ser visto aqui) e em outras ferramentas online de comunicação.

Aprendizado
Fábio Rogério Nepomuceno, professor de português e informática da escola Fernando Gracioso, concorda que hoje os jovens têm mais facilidade com a tecnologia do que com a língua portuguesa. Mas afirma que fica mais fácil escrever corretamente quando o aluno tem algum conteúdo que realmente quer divulgar, como no caso do projeto Imprensa Jovem. "Trabalhamos em cima da informação para então chegar à escrita correta, e não o contrário", explicou.

Os alunos Sara e Rafael, que uma vez por semana trabalham como monitores voluntários no laboratório de informática da escola, têm presença confirmada no evento geek (de fãs de tecnologia).

De lá, os dois — que também são bons alunos de português — contarão para aqueles fora da Campus Party como é o acampamento digital. Já no clima, Sara mudou a ordem da entrevista para o UOL Tecnologia e quis saber, da repórter, se o evento desta quinta dava realmente uma boa ideia do que ela vai encontrar por lá, na próxima semana.


Serviço
Campus Party Brasil 2010
Data: De 25 a 31/01/2010
Horário: Das 10h às 22h (para visitantes; "campuseiros" poderão entrar a partir das 12h de 25 de janeiro)
Preço: Grátis para visitantes; R$ 140,00 para "campuseiros" (participação no evento, posto na arena de computadores e atividades); o serviço de acampamento custa R$ 15,00; o pacote de alimentação para os sete dias de evento (com comida, bebida e sobremesa) custa R$ 165,00.
Local: Centro de Exposições Imigrantes (Rodovia dos Imigrantes, km 1,5 - São Paulo - SP)
Informações no site oficial ou pelo e-mail

Zilda Arns e a questão do saneamento


Escutando na CBN a triste notícia do falecimento da médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, ouvi sobre a sua participação como embaixadora no Instituto Trata Brasil, focado, entre outras coisas, na difusão sobre informações que relacionam a questão da água com a cultura, a educação e o futuro de nossas comunidades. Nunca é demais lembrar que a falta de acesso a água tratada interfere de maneira negativa em todos os aspectos da sociedade.

O video de campanha acima é em homenagem a essa profissional. Mas aproveitem para navegar pelo precioso site, que disponibiliza estudos e pesquisas sobre o tema saneamento.

Entre outros, dá para acompanhar o que o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, está realizando (e gastando) nos Estados.

Viajando de bike... e pela rede



Quem tem fissura por viajar como eu tenho (já fui repórter de turismo e perambulei de mochila pelo Brasil afora, e cheguei até a Guiana Inglesa, Chile, Argentina e Uruguai. Só pra me exibir um pouquinho) sabe o significado das viagens pras nossas vidas.

O aprendizado é grande. Quem trabalha em projeto social também sabe como abre os horizontes mandar a galera de comunidades darem uma volta por aí para ver o que outras pessoas estão fazendo para melhorar a sua qualidade de vida. A cultura da viagem para partilhar outras visões de mundo poderia ajudar a difundir uma cultura de paz, respeito pela diversidade, etc.

Esse blá-blá-blá é só para introduzir a expedição de Valdecir João vieira, este jovem de 64 anos de idade que saiu de Joinville (SC), em março de 2.009, e pretende circular por 63 países e mais de sessenta mil quilômetros pelo mundo. Seu projeto, que virou realidade, é o Pedalando Pela Paz, no qual escreve um diário de bordo e aponta num mapa do Google por onde está passando.

Quem tá sem fazer nada fuçando na internet vai se deliciar. Quem está na escola pode aproveitar pra usar os computadores no laboratório de informática para mostrar a garotada que existe um mundão lá fora. E que com sonhos, organização e muita vontade, dá pra ir atrás dele. Idade, ainda bem, não é impedimento...

Pinguin: reflexo do que a garotada gosta na internet?

Passando férias forçadas com meus sobrinhos, percebo o quanto a internet já se incorporou nas famílias de classe média com computador em casa. Crianças urbanas, que normalmente não vão para a rua brincar, porque podem ser atropeladas ou sequestradas (sim, Campinas, no interior de SP, é assim).

Minha sobrinha Giovanna, de oito anos, pediu meu cartão de crédito semana passada para uma operação virtual. Queria R$ 8 para acessar uma área on line do site Club Penguin, maior sucesso entre suas amiguinhas. O papo é igual aqueles de quando éramos crianças: "mas todos os meus colegas têm, eu também quero ter".

O site é um jogo virtual cujos personagens são pinguins coloridos, que passeiam por vários cenários de neve. Os R$ 8 são para comprar acessórios indispensáveis a vida desses pinguins naquele microssomo social. Gasta-se moedas para comprar e alimentar mascotes; acessórios para os iglus (sim, os pinguins moram nessas casinhas de gelo), roupas coloridas e fantasias; fazer passeios, etc. Seus amigos do mundo real podem estar lá representados e dialogar em balõezinhos que representam os chats.

Giovanna acorda nessas férias e a primeira coisa que faz é ligar o micro e telefonas pras amiguinhas pedindo pra elas entrarem no site para brincarem virtualmente.

A garotada vive nesse joguinho virtual o que nós, adultos entediados, fazemos ao zapear aqueles canais de compras por impulso. Ou quando vamos a uma loja de decoração e compramos aquele vaso caro e que não serve para nada, só porque estava em oferta.

Só que a perversidade no caso das crianças é bem maior. Não temos tempo para brincar com elas, então, dá-lhe TV a cabo. Elas também zapeiam os canais infantis, e páram para prestar atenção em propagandas de brinquedo, de sites como esse Club Pinguin, de marcas de roupas... a mensagem é "comprar, comprar, comprar", "consumir, consumir, consumir", num ciclo que chamei de perverso porque a própria Disney (me desculpem, grifei mas não vou fazer propaganda gratuita pra esses caras), que tem um canal a cabo, o usa para fazer propaganda de seus produtos 24h por dia.
É isso que elas fazem nesse Club Pinguin: comprar, sem pestanejar ou pensar para que. Ou melhor: para ter um negócio melhor que o do amiguinho, mesmo que ele seja virtual.

Não gosto de me admitir careta e moralista acerca da televisão. Torço o nariz para aqueles casais que querem criar seus filhos numa redoma, longe da TV, impedindo seus pimpolhos de acessar qualquer coisa que não sejam aqueles desenhos por vezes monótonos dos canais culturais. Sou fã de desenhos animados, adoro o Bob Esponja e muitos desenhos da Disney-Pixar.

Mas essas férias serviram para ver o abuso da mídia em cima da garotada, e serve mais ainda para mostrar como quem é educador não consegue atingir essa turminha como a mídia consegue. Pinguins coloridos representando a nós mesmos, e se reunindo num mundo virtual, são exemplo da nossa atual incompetência para lidar com a infância televisiva e internética dentro da indústria.
Ah, mas eles têm dinheiro, a Disney, e todas essas indústrias da mídia... e nós, não podemos influenciá-la de jeito nenhum? Onde estão os projetos de educação ambiental e consumo consciente influenciando a mídia de verdade, não somente criticando-a? Então, dupla incompetência nossa...

Internet ajuda a mobilizar doações e voluntários para a questão das enchentes

Experiência de articulação no mundo virtual são sempre bacanas para serem citadas. É o caso do Projeto Enchentes, recém aberto e com a idéia de expôr mapas das áreas atingidas pelas águas nesse começo de 2.010, centralizar notícias de jornais e relatos enviados pelos próprios usuários sobre os acontecimentos e - o mais bacana - rastrear formas de doações e voluntariados. Confira o mapa clicando aqui e participe.

Se depender dos internautas, pelo menos a divulgação do projeto está rendendo. Todos os twitters não páram de propagar o blog.

Quando é que vamos conseguir fazer isso para temas ligados a educação ambiental? Não seria o máximo um mapa construído coletivamente, onde possamos apontar locais para entrega de recicláveis, por exemplo, fora das grandes capitais? Ou apontar onde há projetos de jornais comunitários precisando de verba?

Ficam aqui as idéias...

Novo livro digital sobre mídias na educação

Resultado de um projeto da Universidade Sagrado Coração (USC), o livro digital Mídias na Educação é resultado de uma pesqisa de dois anos, onde professores e alunos de ensino médio participaram de oficinas e testaram atividades envolvendo comunicação.

Publicidade, fotografia, cinema/video e rádio são os temas das atividades propostas para a sala de aula. Clique aqui para conhecê-las.
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