Relatos pessoais: porque me apaixonei pela causa ambiental

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Conversando com a educadora e escritora Fanny Abramovich veio a idéia: porque não fazer como o Museu da Pessoa, uma instituição que resguarda a memória do Brasil através do relato de pessoas comuns até celebridades queridas, e trazer a tona o que incentivou ambientalistas, educadores e comunicadores a se apaixonarem pelas questões socioambientais?

Inicio pelo meu relato e deixo o convite. Envie a sua história pessoal, contando “como me envolvi de corpo, mente e alma pela causa socioambiental” para o e-mail
educomverde@yahoo.com.br, com nome completo, mini-currículo, blogs e sites (se houverem), telefone e cidade. Se quiser, mande também uma foto sua, e idade. Publicarei todos que chegarem e, no Dia do Meio Ambiente sortearei um kit de sacola de compras ecológica, de tecido, e sabonetes feitos de elementos vegetais.

Participe! E inspire outras pessoas a trilharem seus caminhos.
Um caminho e várias trilhas
Não lembro de gostar de nada que se referisse a mato quando criança. Criada em apartamento, passava as férias na casa dos meus avós e quando muito subia em árvore pra pegar jaboticaba. Gostava era de ler, escrever, desenhar...
Quando “estive adolescente”, em Campinas, vivi uma fase cheia de conflitos. Para fazer birra a meu pai, aceitei o convite de um amigo que escalava montanhas (nem imaginava o que era isso) e fui pra um tal de Pico das Cabras, num distrito rural chamado Joaquim Egídio. Lugar bonito, alto, cheio de pedras e de verde. Acho que comecei aí a perder um pouco do medo do mato.

Em 1992 já estava na faculdade e arrumei um (sub) emprego num jornal de bairro. Era o ano da Eco-92, mas uma realidade tão distante de mim! Entretanto, nem me lembro mais porque, mas o jornal arrumou um colunista “verde”. O primeiro ambientalista que tive contato, que se chama Carlos Vageler e hoje escreve para o site 360 Graus. Ele era guia de ecoturismo, outro termo que surgia na época, e conduziu minha primeira viagem, de verdade, “pro meio do mato”. Foi para as montanhas de Itatiaia, subida difícil para quem nunca havia feito nada do gênero, e aí me apaixonei. Ver estrelas num céu sem poluição, caminhar e absorver a paisagem desde o pulmão parece piegas, mas foi um divisor de águas em minha vida – o primeiro, de tantos, ligados a jornadas bem longe da minha casa. Na volta dessa viagem percebi que meu caminho estava invariavelmente ligado a idas e vindas de ambientes naturais.

Do apaixonar pra abraçar a causa em reportagens, um pulo. Em jornais do interior matérias de denúncias eram sempre bem vindas, mesmo as ambientais. Sentia estar fazendo algo muito importante ao publicar irregularidades de um aterro sanitário, ou conhecer o trabalho dos veterinários em um zoológico... e viajava, sempre que podia. Para o Parque Estadual do Alto Ribeira (Petar), a Ilha do Cardoso, a Ilha Grande, onde delirei vendo peixes embaixo d´água... até aqui era só pela natureza “intocada” que me interessava. Até o “segundo divisor de águas” que foi uma viagem a
Paraty, no litoral Sul do Rio de Janeiro. Aquelas casas históricas, aquele clima de passado me pegou fundo! Faz 12 anos que encanei com esse lugar e pensei: preciso morar aqui. Preciso viver, trabalhar, respirar Paraty.

Não dava pra morar, mas passei a visitá-la todo mês. Aos poucos fui conhecendo suas paisagens intocadas e tomando contato com outro tipo de natureza: a das comunidades caiçaras, esse povo que ainda existe em nosso litoral da região Sudeste, descendente de índios, negros e escravos, que pesca, vive em casas de pau-a-pique (alguns), em lugares onde só se chega de barco ou a pé. Entrei numa pós de ecoturismo, e quis fazer de Paraty meu tema de trabalho. Conheci Adriana Matoso, uma arquiteta que na época coordenada o Plano de Manejo da APA Cairuçu (que abrange a área de Mata Atlântica mais preservada de Paraty, a Reserva da Juatinga) para a ong SOS Mata Atlântica. Ela me acolheu e aproveitei a oportunidade para me “enfronhar” ainda mais nas praias dos caiçaras, onde conversei, entrevistei, pesquisei e ajudei a construir um capítulo sobre as atividades de turismo que já aconteciam na região. Me engajei... freqüentava a Praia do Sono, onde se chega depois de uma hora de caminhada, e montei cursos de condutores de ecoturismo, ajudei em gincana pra recolher lixo, fiz exposição de fotografia com culinária caiçara. Tudo como voluntária, porque tinha emprego fixo que me permitia fazer tudo isso nas poucas horas vagas.

Esse emprego era viajar pelo Brasil pelo
Guia 4 Rodas. Durante pouco mais de cinco anos, rodei mais de 100 mil km de estradas (nem sempre boas, nem sempre asfaltadas) e conheci muita coisa na prática, do que vi nos livros e nas aulas da pós. Testemunhei mudanças em muitas de nossas paisagens; a chegada do asfalto aos Lençóis Maranhenses, um lugar perdido de dunas de areia no litoral do Maranhão; vi centenas de cachoeiras em tudo que é lugar, do interior de Santa Catarina ao interior do Nordeste (que não é tão seco assim, é repleto de cachoeiras); vi lixo, degradação, exploração de turistas por moradores locais e de moradores locais por turistas; fui às Cataratas do Iguaçu, que são realmente a oitava maravilha do mundo; amei Bonito, o Pantanal, e pirei em todas as viagens com tudo o que vivi, as pessoas que conversei, as ongs e associações comunitárias que me contaram de seus trabalhos pela preservação de tradições, ao mesmo tempo em que lutavam para preservar a natureza.

A palavra “socioambiental” ia se incorporando cada vez mais em minha vida, embora eu ainda detestasse morar em São Paulo e dissociasse essa cidade de tudo o que queria para o meu futuro. Meu futuro era mato, lugares isolados, no máximo Paraty, era tudo o que eu queria. Até conhecer o terceiro grande divisor de águas nas tantas jornadas de minha vida: a Amazônia.

Falem o que quiser, ame ou odeia, mas a Amazônia é um símbolo que mexe com muita gente como eu, que admira e trabalha pelas causas socioambientais... um ícone distante, até que em uma das minhas últimas viagens pelo Guia 4 Rodas, em 2004, tive a oportunidade de fazer um percurso insano e rápido de pesquisa para Manaus (AM), Santarém (PA) e Macapá (AP) – tudo na mesma viagem! Lá fui eu, com o friozinho na barriga de conhecer a Amazônia, e ao mesmo tempo sem expectativas muito claras do que veria pela frente. Também estava cansada do emprego, de viajar a trabalho, de viver tão sozinha... até olhar pela janela aquele mundo verde! Eu nunca tinha visto nada parecido ao vivo, voar de um estado a outro praticamente sem ver nada além de mata, mata, e rios serpenteando essa mata...

Vi contrastes e me encantei por eles. Manaus, feia, bagunçada, cheia de camelôs, e ao mesmo tempo tão exótica, repleta de cheiros, de frutas que nunca tinha visto na vida, o rio que parece mar de tão largo... Santarém, então, pirei mais ainda. A cidade também não é grande coisa e cheguei a Alter do Chão, uma vila na beira do rio Tapajós, sem muito ânimo, num fim de tarde. Passei só um dia aqui, e no dia seguinte iria embora para Macapá. Que dia longo! Em Alter vi o pôr-do-sol mais inesquecível da minha vida, o que era aquilo? Parecia fogo, de tão vermelho... fiquei na água do rio até nove, dez horas da noite. Fui pra Macapá chorando de tristeza, que Paraty que nada, quero ficar aqui! Macapá, também lugar de contrastes. Cidade feia, suja, cheirando esgoto e no meio da floresta, estranhamente sem árvores. E ao mesmo tempo linda, na beira do rio Amazonas! Como é que pode beleza e feiúra conviverem assim! Ainda fui pro Oiapoque, me assustei com a degradação, a mata caída, o estado da estrada de chão, a miséria de uma cidade tão próxima da natureza, e tão triste, tão hostil com as pessoas que nela vivem... nasceu, de tudo isso, um amor irracional pela Amazônia e seus personagens. Sem gente, a Amazônia é um tapete verde lindo, mas deserto. Com gente, é um caldeirão de conflitos, cheiros, sons, histórias!

Voltar dessas viagens sempre foi difícil, ainda mais para uma cidade como São Paulo. E não é que São Paulo ficou diferente depois da Amazônia... ainda amo Paraty e tenho vontade de trabalhar na região amazônica. Mas foi em São Paulo que conheci as ferramentas de trabalho que me permitiram abrir a mente para além do jornalismo: me encantei pela
educomunicação, um campo que une comunicação e educação, que pode facilitar e democratizar os processos de educação ambiental). Pensar meio ambiente com esse olhar da educomunicação fez me reencantar com a profissão de jornalista e pensar no quanto é importante escrever sobre meio ambiente para encantar – e re-encantar as pessoas.

Mais do que isso, toda essa trajetória me fez perceber o quanto não dá pra ignorar o ser humano como parte intrínseca da tal “natureza’. Ou, como disse a geógrafa Sueli Furlan, lembrando Darcy Ribeiro, “gente”. Esse tem sido o grande desafio da minha vida profissional: aproximar gente da natureza, não só daquela imagem da paisagem isolada, mas conectar as pessoas de seu ambiente local. Mudando olhares. Ajudando as gentes a refletirem: dá pra mudar!

(Débora Menezes, jornalista e autora deste blog)

3 comentários:

  • josete disse...

    Bela reflexão Débora! Sua história está linda, linda!
    Não sei se vou conseguir fazer uma tão bonita assim, vou tentar!
    Beijos,
    Josete

  • Felipe Rocha disse...

    Olá Débora,

    Ótima iniciativa esta sua. Fico aqui imaginando o porquê de não ter pensado nisto antes no meu blog ... rsss, mas deixa pra lá!

    Abraços e até mais!

 

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