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Evoluindo a comunicação dentro da educação ambiental

Estou em Brasília (DF), participando da cobertura da III Conferência Nacional de Meio Ambiente (CNMA), que é uma grande reunião de representantes do governo, terceiro setor e outros para produzir um grande documento coletivo, com propostas que devem ajudar na formulação da Política e do Plano Nacional sobre Mudança do Clima. É um processo participativo: as propostas foram construídas com representantes da sociedade civil, a partir de um texto-base proposto pelo governo (articulado em vários ministérios, inclusive o do Meio Ambiente) em conferências municipais e estaduais realizadas desde o final de 2007. Nessa conferência, delegados eleitos por estados vêm para discutir e aprovar – ou desaprovar – as tais propostas, que serão trabalhadas nos ministérios como pauta para ações de enfrentamento das mudanças climáticas nos próximos anos de gestão do atual governo.

Ajudando a escrever posts para o blog
Coletivos Educadores, com o auxílio do jovem jornalista João Malavolta, acompanhei especialmente o grupo de trabalho que está discutindo educação ambiental. E me espantei com a quantidade de propostas relacionadas a conexão entre comunicação e educação entre as recomendações sugeridas. Algumas delas:

- Criar um canal de comunicação eficiente para que a comunidade seja ouvida e orientada sobre temas ligados às questões ambientais e o uso correto dos recursos naturais (AL).

- Incentivar e apoiar projetos de educomunicação socioambiental e cultural, com o objetivo de incluir os setores locais, de forma participativa, nas questões relativas às mudanças climáticas (ES).

- Criar incentivos para TVs e rádios comunitárias criarem e ampliarem programações voltadas para a proteção do meio ambiente (RJ).

A preocupação é inerente aos grupos que trabalham com educação ambiental. De um lado, a mídia é a principal difusora de informações (certas ou erradas, ou mesmo incompletas) sobre assuntos da atualidade como Mudanças Climáticas. É o assunto do momento na TV, nos jornais, na rádio... e a tecnologia – leia internet – ajuda essa difusão, ou ainda “bombardeio” de informações. E tanto a comunicação quanto a educação rendem-se muitas vezes a esse bombardeio...

Paralelamente a essa avalanche de informações (na mídia e em grupos que atuam com educação ambiental) sobre Mudanças Climáticas, o Ministério do Meio Ambiente discute há algum tempo a construção de um
Programa de Educomunicação Socioambiental, dando nome e legitimação a um campo de estudos defendido por pesquisadores de comunicação da Universidade de São Paulo (USP) e utilizado na prática social de educadores socioambientais.

Educomunicação? Sim. Graças ao esforço de todas essas pessoas, especialmente na área ambiental, esse “híbrido” de dois conceitos poderosos está sendo cada vez mais difundido, e se refletiu nas propostas do texto-base da conferência. E que bicho é esse? “Há uma percepção do censo comum sobre a interação entre educação e comunicação. E é aprofundando o conhecimento que essa convergência aparece”, lembra o diretor do Departamento de Educação Ambiental (DEA) do MMA, Marcos Sorrentino.

Ainda não ficou claro? Pense na comunicação e na educação avançando, indo além da difusão de informação... pense no conceito oferecido pela
Equipe do DEA que está debulhando o tema, e que resume a educomunicação como “um campo de saberes e práticas relacionadas ao uso pedagógico da comunicação e à comunicação social educativa. Educomunicação ambiental , ou socioambiental, é um conceito político-pedagógico que assimila a experiência da Educomunicação em ações de intervenção e educação ambiental”.

No jornalismo, essa preocupação se refletiria, segundo Sorrentino, em reportagens que provoquem o questionamento das pessoas em relação ao assunto que está sendo tratado no texto – numa perspectiva de gerar uma espécie de “diálogo”. Concordo, acrescentando que é preciso clareza e preocupação com quem está lá do outro lado da ponta, lendo, vendo e ouvindo o que você escreve: será que estão realmente entendendo? E a partir desse entendimento é que podem refletir e se engajar... parece óbvio, mas na prática alguns jornalistas não o fazem, por falta de tempo, experiência, preparo ou até mesmo vontade (em alguns casos!).

E na educação ambiental, a preocupação com difundir informação para conseguir mudança de comportamento e mobilização encontra na educomunicação práticas político-pedagógicas para que a comunicação deixe de ser uma via de mão única.

Ainda está difícil entender? Na prática, diversos educadores ambientais já o fazem, ainda que não saibam definir muito bem. “Na minha cidade há um programa de rádio onde as crianças das escolas locais produzem inserções falando sobre meio ambiente”, lembra o gaúcho Carlos Eduardo Pompeu Sander, educador em Passo Fundo (RS). “O meu grupo faz um jornal coletivo com as comunidades locais escrevendo pequenas matérias”, diz outro educador. E por aí vai... há milhares de experiências acontecendo.

Como conseqüência, com certeza, quem passa por esse tipo de atividade vibra mais do que receber uma cartilha de modos ecologicamente corretos, passa a enxergar a mídia de forma mais crítica, pois está produzindo suas própria informação e encontrando o que realmente importa para si. E sim, há experiências que avançam para a mobilização.

Enquanto o MMA, o NCE e outros grupos quebram a cabeça para explicar o que é educomunicação, no paralelo a prática avança. E mesmo que você não entenda o conceito teórico, não importa: faça! E busque se aprofundar em leituras que expandam a sua percepção de comunicação. Garanto que o ato de fazer um boletim ou uma cartilha dentro do seu grupo de trabalho nunca mais será o mesmo... e a forma de se relacionar-comunicar com seus pares também vai se transformar.


Você tem uma experiência que envolve educação e comunicação? Comente, conte, compartilhe! Deixe o seu recado no post.

Comentários

Bel Domínguez disse…
Débora, esse seu texto ajuda a iluminar os caminhos para o exercício educomunicativo, viu!
Tudo indica que precisamos mesmo desse tipo de contribuição para impulsionar o mergulho nessa nova área (nem tão nova assim) sem grande medo das profundezas...
E de certo modo, também, desmitificando esses saberes...
Para que o poder de locução da Educação Ambiental se amplie...
Para que, afinal, continuemos a tocar e a celebrar a Vida por muito mais tempo, ampliando a percepção e a conscientização dos sons produzidos pelas muitas bandas da práxis.
Bj

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