Pular para o conteúdo principal

Atrás de uma borboleta azul, por Marina Silva

Marina Silva é professora secundária de História e senadora pelo PT do Acre. Sim, estamos falando da ex-ministra do Meio Ambiente. Seu artigo abaixo é uma delícia, e pode ser ponto-de-partida para falar sobre a floresta na sala de aula, para a garotada que não faz idéia do que a Amazônia representa para quem a conhece.

A foto é da Ilha do Marajó, no Pará. Leia reportagem que fiz sobre essa região para a revista Bons Fluídos, em 2006.

"Florestas não são apenas estatísticas. Nem apenas objeto de negociações, de disputa política, de teses, de ambições, de pranto. Antes de mais nada, são florestas, um sistema de vida complexo e criativo. Têm cultura, espiritualidade, economia, infra-estrutura, povos, leis, ciência e tecnologia. E uma identidade tão forte que permanece como uma espécie de radar impregnado nas percepções, no olhar, nos sentimentos, por mais longe que se vá, por mais que se aprenda, conheça e admire as coisas do resto do mundo.

Vivi no seringal Bagaço, no Acre, até os 16 anos. Tenho pela floresta muito respeito e cuidado. Quem conhece a mata, não entra de peito aberto, mas com muita sutileza. Ali estão o suprimento, a proteção e os perigos.
E também o mistério, algo não completamente revelado. Vidas e formas quase imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó diferente, uma raiz, uma textura, uma cor, um cheiro. A descoberta dos sons. Até o vento na copa das árvores compõe melodias únicas, de acordo com a resistência oferecida pela castanheira, a samaúma, o açaizeiro.

Na minha infância, o som que achava mais bonito era o do período da florada das castanheiras. A castanheira é polinizada por uma abelha enorme, o mangangá. Imaginem centenas de mangangás entrando nas flores para tirar o néctar! Como a flor é côncava, na hora de sair têm que fazer uma força extraordinária nas asas, num vôo de frente pra trás, que provoca um barulho de máquina potente e rouca. Uma de minhas primeiras lembranças do mundo é do barulho dos mangangás na copa da castanheira ao lado do terreiro da nossa casa.

Embora para muitas pessoas a floresta possa parecer homogênea, sempre a vi como espaço de diversidade. Gostava de prestar atenção em pequenas coisas, como formigas levando folhas para o buraco. O caminho das formigas era bem limpinho, parecia varrido. A estrada de seringa era cheia de folhas, tocos, raízes, de espera-aí, um espinho de rama que arranha a perna quando a gente passa. E eu imaginava como seria bom ter uma estrada de seringa limpa como o caminho das formigas!

Outra formiga, a tucandeira, tem uma ferroada tão dolorosa que não dá nem para explicar. Mas havia também uma razão mítica pra temê-la. Meu tio Pedro Mendes, que durante muito tempo conviveu com os índios do Alto Madeira, dizia que as tucandeiras viravam cipó de ambé. Se morresse uma na copa da árvore, o corpo virava a planta e as pernas viravam os cipós. Quando se era mordido de tucandeira, a primeira coisa a fazer era procurar um cipó de ambé, cortar e beber a água porque ela era o antídoto. Não sei se era mesmo, mas ajudava a aliviar a dor.

Meu tio ensinava coisas em que a gente acreditava profundamente. Ele dizia que se a gente se perdesse e visse uma borboleta azul, era só segui-la que ela nos levaria para a clareira mais próxima e de lá acharíamos o caminho de casa. Essa borboleta é linda, enorme, quase do tamanho da mão. Nunca vi um azul igual. Que, aliás, é marrom. Os pesquisadores do INPA descobriram que ela tem uma engenharia de disposição das escamas das asas que faz com que, na incidência de luz, se tornem azuis.

Depois entendi porque nos levava para casa. Porque gosta de pousar em frutas como banana e mamão maduros, já bicadas pelo passarinho pipira. Quando sente fome, procura a primeira clareira onde haja um roçado de frutas. E lá perto, certamente haverá uma casa. São coisas que parecem crendice, mas há conhecimento científico associado, obtido pelo mesmo princípio do método acadêmico: observação sistemática dos fenômenos.

Antes de existir Ecologia como ramo do conhecimento ou ambientalismo como movimento, o sistema da floresta já tinha suas normas, o seu "Ibama" natural, sua sustentabilidade, por meio de um código mítico que funcionava como legislação de proteção da mata e das formas de vida que a habitavam. Não se podia pescar mais do que o necessário, porque a mãe d´água afundaria a canoa. Não se podia caçar demais porque o caboclinho do mato daria uma surra. Não podia matar animal prenhe porque a pessoa ficaria panema, ou seja, sem sorte. E para tirar o azar seria preciso um ritual tão complicado que era preferível deixar o bicho em paz.

As práticas de acesso aos recursos da floresta, mediadas por esse código mítico, acabavam levando a um alto grau de equilíbrio. Só se caçava quando acabasse a carne seca pendurada no fumeiro do fogão. Logo, se não se podia caçar em excesso, não havia carne para venda, só para o próprio consumo. Contrariada essa norma, o caboclinho do mato castigaria o infrator com uma surra de cipó de fogo com nó na ponta. A pessoa apanhava mas não conseguia se defender porque não via a entidade. Ficava toda lanhada, com febre. Até o cachorro, se acuava uma caça desnecessária, começava a pular e ganir de dor. Era o caboclinho disciplinando o animal.

Os relatos eram inúmeros e me deixavam com muito medo de andar pelo mato. Superava-o, em primeiro lugar, cumprindo à risca as leis míticas. Além disso, desde criança tenho uma fé imensa e achava que, sendo justa com a natureza, Deus me protegeria.

E mesmo com todo esse medo, minhas irmãs e eu gostávamos de andar pela floresta porque lá a gente se divertia muito. Por exemplo, fazendo balanço de um cipó muito resistente, em árvores que chegavam a trinta metros de altura. Pescar nos igarapés, colher bacuri, abiu, taperebá, ingá, tucumã, cajá, era muito bom.
Era um mundo de sabedoria tradicional, de organização social e cultural inseparável da existência da floresta.

Até que um dia chegaram as motoserras e tratores e desconstituiram os códigos míticos, criando a necessidade crescente do aparato legal que, por não estar dentro do homem, precisa de instituições e mecanismos para implementá-lo. Não foi à toa que a primeira grande operação de combate a desmatamento feita pela Polícia Federal, envolvendo 480 agentes, no estado de Mato Grosso, foi batizada de Operação Curupira.

Se abríssemos hoje nossa sensibilidade para os valores da floresta, talvez se tornasse mais fácil redefinir o que entendemos por qualidade de vida. Quem sabe, pode estar faltando uma enorme borboleta azul para nos conduzir para casa, onde os frutos de nossas decisões sempre nos aguardam em mesa farta."

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desenhos animados ajudam a trabalhar a educação ambiental

Educomunicação é também fazer a leitura crítica da mídia. E tirar dela reflexões para o dia-a-dia, construindo e aumentando o repertório, também, nos eixos temáticos da educação ambiental. A excelente reportagem Faz-de-Conta de Verdade, publicada na revista Página 22, convida a pensar sobre a abordagem ambiental dos desenhos animados, do clássico Bambi a Bee Movie (a abelha inteligente da foto).

Entre os entrevistados da matéria, uma professora da Eastern Illinois University, Robin Murray, as temáticas ligadas à natureza que aparecem em diversos desenhos são, claro, reflexo de nossa cultura atual, onde a problemática ambiental não sai da mídia. Se passam mensagens positivas e fazem efeito sobre a audiência – a garotada e os adultos, que às vezes gostam mais dos desenhos do que as próprias crianças – há controvérsias. Mas muitos educadores acham positivo provocar uma discussão sobre meio ambiente, especialmente com os pequenos, a partir da audição de um desenho animado na escola.

Como o…

Para falar de meio ambiente com as crianças

Despertar o prazer pela leitura e, ao mesmo tempo, passar uma mensagem positiva sobre a natureza, também com prazer. Isso é possível? Para o músico Tino Freitas, do projeto Roedores de Livros, com certeza...

Escrevi sobre o trabalho voluntário do Tino e mais seis "roedores de livros" em Ceilândia (DF) para um especial de leitura da revista Nova Escola. Postei aqui no blog um pouco sobre seu trabalho de contar histórias, ensinar música e arte... e pedi a eles dicas de leitura que tenham a ver com meio ambiente. Olha só o que o Tino nos mandou:
"Dia desses recebemos o convite da Débora Menezes, que cuida com muito carinho do blog Educom Verde, para escrevermos sobre Literatura Infantil, convidando os educadores ambientais a promover a educação ambiental por meio da leitura. Vale à pena explicar que o nosso projeto, o Roedores de Livros, oferece a um grupo de crianças no entorno de Brasília o contato com os livros. Acreditamos que o contato com a Literatura Infantil é uma i…

Educação Ambiental e Comunicação em UCs: tema de dissertação

No dia 21 de agosto de 2015, finalmente apresentei minha dissertação de mestrado "Comunicação e Mobilização na Gestão Participativa de Unidades de Conservação: o Caso da APA da Serra da Mantiqueira", junto ao Laboratório de Jornalismo Avançado da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp). Tendo o professor Ismar Soares, do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP) em minha banca, fiquei bastante feliz com suas palavras indicando que "a Educomunicação passa a contar, a partir desta pesquisa, com um importante suporte bibliográfico para entender a área da gestão comunicativa".

A pesquisa foi orientada pela professora Maria das Graças Conde Caldas, jornalista das antigas que também se debruça sobre a relação entre os campos da Educação e da Comunicação. Inquieta com minhas práticas profissionais de Educomunicação, onde muitas vezes vi essa área resumir-se a metodologias e ferramentas midiáticas de suporte para cursos de Educação…