Porque me apaixonei pela causa ambiental 1

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Relato de Zacharias Bezerra de Oliveira, jornalista pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Comunicação e Novas Tecnologias pela Universidade de Fortaleza, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pelo Programa Regional de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema-UFC). É técnico em Comunicação Social no Ministério das Relações Exteriores e professor de Língua Portuguesa.

Participe! Envie a sua história pessoal, contando “como me envolvi de corpo, mente e alma pela causa socioambiental” para o e-mail educomverde@yahoo.com.br, com nome completo, mini-currículo, blogs e sites (se houverem), telefone e cidade. Se quiser, mande também uma foto sua, e idade. Publicarei todos que chegarem e, no Dia do Meio Ambiente sortearei um kit de sacola de compras ecológica, de tecido, e sabonetes feitos de elementos vegetais.


O exemplo é muito mais poderoso que palavras

Nasci na Caatinga, nos sertões dos Inhamuns, Noroeste do Ceará, em uma família que teve 16 filhos e conseguiu criar 15, pois uma criança, destes 16, entrou para as estatísticas da mortalidade infantil no Estado. Até os 8 anos de idade fui criado mesmo na roça e algumas vezes cheguei a acompanhar meus tios que saíam para trabalhar nas plantações de milho, feijão e algodão às 4 horas da manhã. Lembro-me bem que naquela época os meus brinquedos eram feitos a partir de ossos dos animais, com os quais nós fazíamos carrinhos, casas, gados e currais. Foram os melhores brinquedos que já possuí; daqueles que jamais encontrei em loja alguma do mundo por onde andei. Mesmo sem saber, trabalhar estes brinquedos com a utilização de sabugos de milho, pequenos gravetos e ossos secos de animais eram já os meus primeiros passos na reciclagem e reaproveitamento de material.

Após um breve período de alfabetização com a professora Rosa Moraes, na cidade de Crateús, onde moravam meus pais, fui com estes e mais 8 irmãos para Goiânia, em julho de 1958 (um dos meus irmãos ficou estudando no Seminário dos Capuchinhos em Messejana até se ordenar frade). Posteriormente, em 1962, com mais duas irmãs nascidas ali, fomos todos para Brasília, onde nasceram os três últimos irmãos, completando os 15 mencionados. Foi nessa mudança para Goiânia, quando já ia completar 9 anos de idade, que comecei os meus estudos na escola pra valer.

Ainda não existia a preocupação globalizada com o meio ambiente, mas lá em casa meus pais sempre ensinaram que era preciso usar tudo com parcimônia, por conta da escassez econômica em que sempre vivíamos. As recomendações para um banho menos demorado, para se apagar a luz quando não houvesse ninguém naquele cômodo ou para desligar os aparelhos elétricos quando deles não necessitássemos eram constantes e permanentes. Tudo em casa era dividido e compartilhado. Estas orientações e ensinamentos recebidos em casa e vividos na primeira infância ainda lá no sertão do semi-árido foram os meus primeiros passos na questão socioambiental. Estava plantada a semente.

No início da década de 1970 do século passado, após o serviço militar obrigatório, fiz um concurso para o Ministério das Relações Exteriores e comecei a trabalhar. Este emprego deu-me a oportunidade de conhecer o mundo: Guiana, Suíça, Alemanha e Bélgica foram os países onde vivi de forma mais permanente, mas tive oportunidade de visitar dezenas de outros mais a passeio ou a serviço do Ministério. Conheci as dificuldades do povo guianense, onde morei entre 1974 e 1975, na capital, Georgetown. Aí, tudo era controlado e até uma lata de sardinha era artigo de luxo cobiçado por muita gente. E, nos dois anos que trabalhei em Genebra (1976-1977), percebi o contraste vivido pelo cidadão suíço, que desfrutava a opulência do capitalismo.

Após um período no Brasil, onde fiz o curso de jornalismo na Universidade de Brasília, retornei ao exterior em 1983, desta vez para a Alemanha, na antiga capital, Bonn, para onde levei minha mãe, que ficara viúva, junto com meus três irmãos menores. Esta foi uma fase em que entramos de corpo alma na impulsão de reciclar e reaproveitar todo o desperdício deixado pelo capitalismo. Saíamos pelas ruas nos dias pré-determinados pela Prefeitura da cidade para catar tapetes, sofás, roupas, móveis e brinquedos ainda em perfeito estado de uso e conservação.

Muitos desses produtos redistribuíamos ali mesmo com estrangeiros carentes e vários outros eram trazidos para o Brasil, em nossas bagagens ou de colegas do Itamaraty e aqui vendidos, leiloados ou doados para quem necessitasse. Após a mudança para Bruxelas, capital da Bélgica, em 1985, meus irmãos foram tentar a vida em Londres, mas minha mãe continuou com as idas e vindas à Alemanha, onde arrecadava malas e malas de roupas usadas em bom estado de conservação, que eram transportadas em trem para depois distribuir com pessoas carentes no Brasil, inclusive parentes.

Retornei ao Brasil em 1990 e, após passar o ano de 1992 residindo com meus sogros em San Sebastian, no País Basco espanhol, mudei-me em 1994 para Fortaleza, capital do Ceará. Aqui procurei o ambientalista João Saraiva, presidente do Partido Verde no Ceará naquela época e filiei-me ao PV. Comecei então a minha lide em prol do meio ambiente na cidade. A escola Vila
onde minha filha foi estudar, já fazia um trabalho forte com relação à preservação do planeta e a consciência ambiental com pais alunos e professores e entrei assim de corpo e alma no tema.

Aqui no Ceará, passei pela Escola de Saúde do Ceará
, onde durante 10 anos (1994-2004) trabalhei para que cada setor da Escola fizesse a coleta seletiva de material para a reciclagem e reaproveitamento. Na Agência Frei Tito de Informação para a América Latina, há muitas matérias e reportagens sobre a temática socioambiental que pude realizar no período de minha atuação. Na ong Associação Alternativa Terrazul (2005-2006) trabalhei no Projeto Consumo Sustentável e tive a grata satisfação de elaborar 4 cartilhas: 1) O que é Consumo Sustentável; 2) Sustentabilidade, Consumo e Gênero; 3) Crise Ambiental e 4) Legislação Ambiental.

A partir daí comecei minha atuação no Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável, tendo tido a oportunidade de participar da cobertura especial do Fórum Global da Sociedade Civil “Bem-vindo ao Mundo Real” durante a MOP-3 e COP-8 da Convenção da Diversidade Biológica em Curitiba, Paraná, de 13 a 31 de março 2006 e redigido o Boletim Resistência FBOMS, tiragem de três mil exemplares. Outro fato importante foi ter participado como Delegado, representando a Sociedade Civil (FBOMS), na Segunda Reunião Intergovernamental da Revisão (IGR-2) do Programa Global de Ação (GPA) para a Proteção do Meio Ambiente Marinho de Atividades Baseadas em Terra, de 16 a 20 de outubro de 2006, em Pequim, China. Participo de Grupos de Trabalho, como, por exemplo, o de Comunicação e Informação Ambiental e da Rede dos Jornalistas Ambientais Brasileiros.

Mais recentemente, após um curso de Especialização em Comunicação e Novas Tecnologias, na Universidade de Fortaleza (2003-2004), do qual resultou a Monografia: “Webjornalismo e terceiro setor: o caso da agência Adital em Fortaleza”, sob a orientação da professora Erotilde Honório Silva, tomei gosto pela Academia e resolvi cursar o mestrado do Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente, na Universidade Federal do Ceará (UFC).


Acabo de defender, dia 4 de abril último, a dissertação “Análise da desertificação nos sertões dos Inhamuns-Ceará, no contexto das políticas públicas e o papel da mídia”, orientado pela professora Vládia Pinto Vidal de Oliveira, que poderá ser acessada no site do Prodema. Agora, estou dando aulas em um curso seqüencial da Universidade Vale do Acaraú e sou candidato ao doutorado da Faculdade de Educação da UFC. Minha vida de professor apenas acaba de começar!

Hoje, saio pelas ruas com sacos plásticos catando latas de cervejas e refrigerantes e garrafas pet que as pessoas saem rebolando em qualquer canto, em qualquer estrada ou em qualquer lugar. Depois redistribuo estes produtos para catadores que passam aqui na minha porta. Este exemplo já arrasta seguidores. O porteiro do prédio em frente a minha casa também já traz latinhas e joga-as aqui no meu jardim. Uso o carro com parcimônia e sempre que posso saio a pé, mesmo para distâncias maiores, quando o tempo me permite. Meus amigos já sabem que junto latas também quando vou aos encontros informais e recolhem as latas para mim. Outro dia um deles me presenteou com um amassador de latas.


Em outubro de 2005, em uma Romaria a pé à cidade de Canindé (120 km de Fortaleza), juntei mais de mil latinhas pelo caminho, trazendo-as para Fortaleza de ônibus e doando-as para uma das pessoas que passa em minha casa recolhendo material para reciclar. Até hoje, se vejo algo na rua que pode ser aproveitado ou servir a alguém, não hesito em catar.

Acredito que o exemplo é muito mais poderoso que palavras. Acredito também que o planeta sobreviverá às mudanças naturais que a ação antrópica está ajudando a acelerar, mas a vida que corre sobre ele depende de nossas ações para continuar pulsando. É preciso que cada um faça um pouco mais que a sua parte. Credito tudo o que faço hoje em prol do meio ambiente e da justiça ambiental ao belo exemplo que recebi de meus pais e, principalmente, de minha mãe, Luiza Bezerra de Oliveira (que aparece foto), a quem quero agora render minha homenagem neste Dia Mundial do Meio Ambiente, que deveria ser honrado por nós em todos os dias de nossas existências.


Muito obrigado!

2 comentários:

  • paula disse...

    parabéns pela iniciativa, débora. muito bacana e curioso saber como as pessoas se iniciam na causa ambiental. abraços, paula [psustentavel@gmail.com]

  • Anônimo disse...

    Lamentei não poder ver a foto da homenageada neste texto.

    Abraços, Zacka

 

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