Para começar o ano, uma reflexão sobre o (eco?) turismo

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Praias desertas, cachoeiras, trilhas, num lugar sem acesso por estradas – somente a pé, ou de barco. Sim, paraísos como a Reserva Ecológica da Juatinga, no litoral Sul do Rio de Janeiro, existem! Mas ao contrário do que você pode imaginar, muita gente já conhece e freqüenta esse lugar maravilhoso da foto.

Centenas de pessoas, para ser mais exata. Durante o reveillon, a pequena praia do Pouso da Cajaíba, onde vivem cerca de 150 famílias, triplica a sua população. Os pescadores cedem suas casas para os turistas, administram campings ou trabalham para terceiros, geralmente paulistas e cariocas. Barzinhos espremem-se na areia, e as trilhas ficam lotadas de pessoas em busca de aventura, sol e mar.

Até aqui, o Pouso continua sendo o “paraíso”. Mas basta pisar em suas areias para entender a que preço nós, turistas e comunidade, estamos pagando para usufruir desse Éden... a praia faz parte da Reserva Ecológica da Juatinga, uma unidade de conservação criada em 1992, para proteger pouco mais de oito mil hectares de uma das regiões mais preservadas do litoral do Sudeste. Arrisco a falar: uma das únicas, espremidas entre a abarrotada costa de Ubatuba (SP) e os hotéis sofisticados contrastando com as favelas de Angra dos Reis e Mangaratiba, já no Rio.

Na teoria, não deveria haver turismo nessa região. Não deveria, também, morar gente na Cajaíba, no Sono, no Mamanguá e nas tantas vilas caiçaras da reserva. Mas os pescadores, descendentes de uma mistura bem brasileira de portugueses, índios e negros, moram por ali há muito mais tempo do que a lei dos homens. E como as leis também são falhas, não foram indenizados para saírem de seus vilarejos na areia. Outras leis vão surgindo, mais confundindo que ajudando a essa população espremida entre o mar e a serra. E assim eles vão vivendo, plantando mandioca, pescando o peixe de cada dia... até o primeiro mochileiro chegar e se encantar com o paraíso.

A natureza e o casos

É um encantamento. Quando cheguei como mochileira, pela primeira vez, na Praia do Sono (que também faz parte da Reserva), achava difícil acreditar em um lugar tão preservado da “civilização”. Sem luz elétrica, com pessoas simples, numa praia deserta e livre de carros, de falta de água e de outros probleminhas tão comuns ao urbanizado litoral do Sudeste. Passei anos acampando nesse lugar, percorrendo trilhas, ouvindo histórias dos caiçaras. Outros tantos passei sem voltar, até decidir passar o reveillon no Pouso da Cajaíba.

Os tempos mudaram com a descoberta do paraíso. Mesmo sem autorização legal para vender suas terras, muitos caiçaras passam as posses de casas e terrenos para a exploração de gente de fora. Com certeza também chega gente sabe-se lá de onde, e se instala, garantindo ter direitos sobre a terra. O Saco do Mamanguá, cuja paisagem para alguns lembra a dos fiordes noruegueses, abriga mansões a beira-mar em plena unidade de conservação onde não é permitido esse tipo de uso.

Na Cajaíba não há mansões a vista. Mas é grande o número de casas alugadas para os turistas. O maior camping local garante ter abrigado “apenas” 250 pessoas. Ano passado foi quase o dobro, para menos de 15 banheiros, instalados na beira de um riacho que já vai ganhando cheiro e contornos de esgoto. Imagine 250 pessoas indo ao banheiro todos os dias, tomando banho com shampoo todos os dias... sim, porque o paraíso, é claro, não tem saneamento básico, nem fiscalização, nem estrutura.

No paraíso, é tudo muito liberal. Com exceção de lugares como o camping do seu Maneco, próximo a praia de Martins de Sá (que não vende bebida alcoólica e pede para o pessoal manter a linha), a galera curte o lugar a sua maneira. Maconha é como cerveja e cigarro: quase todo mundo fuma, sem se importar muito com a presença de crianças ou das pessoas do próprio lugar – e com aqueles que detestam qualquer tipo de fumaça, ilegal ou não.

E no final do feriado, o saldo: falta d´água, praia repleta de lixo (muita coisa é queimada porque o volume é grande, e levar até a cidade de barco custa dinheiro), uma bagunça que uma hora, com certeza, vai sair do controle. Ou melhor: não há controle, planejamento, e parece faltar união dentro das próprias comunidades. Um dos funcionários do Instituto Estadual de Florestas (IEF), órgão responsável pela fiscalização da reserva (e que não fiscaliza por falta de funcionários), lembra que muitos nativos não se organizam. Por outro lado, muitos desses nativos reclamam do IEF. Que não há apoio para eles, que não podem aumentar seu roçado de mandioca...

Conduta correta: é o mínimo

A essa altura do campeonato vocês devem estar perguntando: o que essa moça, que se diz educadora ambiental, foi fazer nesse paraíso que parece já estar perdido, num caminho sem volta rumo a urbanização desordenada? Confesso que em alguns momentos me deu uma grande vontade de ir embora do paraíso. Mas a cada vez que botava o pé na trilha e via uma praias de águas cristalinas do alto do morro... a cada vez que observava o lindo artesanato de retalhos que uma caiçara fazia... a cada visão do quintal das casas (por enquanto) sem portões, das árvores, respirava fundo e prosseguia. Sim, isso aqui é o paraíso... ainda que enfrentando muitos problemas de identidade.

E sim, tomei banho com shampoo, produzi pelo menos cinco sacos de lixo durante a minha estadia de uma semana, fui para a cachoeira lambuzada de filtro solar. Além disso, viajei no pior feriado do ano, o mais cheio – e o mais impactante. Condutas incorretas. Mas também tentei levar meu lixo de volta. Comentei ao dono do camping que não gostei de sua estrutura. Não fiz fogueiras e volto a São Paulo com vontade de refletir sobre tudo isso com os leitores.

O paraíso existe. Mais de um, inclusive, nesse país imenso e, mesmo tão pressionado pelo turismo e pela urbanização desordenada, e assolado pela corrupção de um lado, e pela falta de fiscalização, por outro. Permita-se conhecê-los, mas reflita, sempre, sobre sua conduta. Não custa nada ser consciente. Se viajar e se aventurar é inevitável (é preciso, segundo o poeta), vamos curtir da forma menos impactantes que encontrarmos.

Eu volto ao paraíso no carnaval. Mas podem ter certeza que a cada viagem, aprendo mais um pouco, e levo mais um pouco de coisas boas para cada lugar – não deixo só o resíduo. Faça o mesmo! Quem sabe assim, o (s) paraíso (s) não vai se tornar o purgatório que muitas cidades se tornaram, graças sobretudo a nossa falta de educação.

*** Leia mais sobre conduta consciente em ambientes naturais no site Mania de Aventura. Já é um primeiro passo...

1 comentários:

  • Jenny Horta disse...

    Vou ajudar a divulgar essa conduta!! São coisas tão óbvias, mas a maioria das pessoas não estão nem aí. O maior inimigo ambiental é o egoísmo do ser humano.
    bjs
    Jenny

 

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