Fordlândia é um ícone da história amazônica, espécie de símbolo sobre as dificuldades do desenvolvimento capitalista em meio a floresta. O empresário Henry Ford investiu nessa região, na década de 1920, adquirindo 15 mil quilômetros de terras em um ponto do Tapajós, que está a aproximadamente 330 km de Santarém (PA), por terra, com acesso mais fácil em 12 horas de barco.
Ford não queria apenas um latifundio. Ele criou uma verdadeira cidade cercada de árvores. Hospital, comércio, praça com atividades de lazer estavam a disposição de operários e patrões. Mas o rígido regime de trabalho imposto para os imigrantes, somado às adversidades do clima, contribuíram para que o empreendimento não funcionasse. Nenhuma tigela de látex foi extraída nessa região, lembra Greg Grandin, num texto brilhante sobre Fordlândia escrito para a revista Piauí (em 2010, mas ainda atual).

Devolvido ao governo brasileiro (ou melhor, o Brasil comprou as terras de volta), Fordlândia perdeu moradores. O comércio fechou as portas, o hospital parou de funcionar na década de 1990. Restavam ruínas e saudosos moradores. Alguns turistas mochileiros arriscavam sair do paraíso de Alter do Chão, em Santarém, para conhecer esse fracaso perdido da história. Eu mesma, em 2003, fiz essa viagem e uma crônica inspirada no espanto do que vi (mais ouvi, do que vi) traz um pouco da sensação de um lugar que esqueceram.
Em 2010, no entanto, a história foi relembrada mundialmente com o lançamento do livro Fordlândia - Ascensão e Quedda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva, de Greg Grandin - à venda no site Submarino. Com o romance elogiado pela crítica norte-americana, houve uma espécie de retomada do tema Fordlândia com documentários, exposições e reportagens.
Para os organizadores do evento, conectar ao presente, por meio do rádio, um lugar tão ligado ao passado, é um processo de aprendizagem entre os moradores locais e os "estrangeiros". Tanto os organizadores da atividade, quanto os ouvintes estrangeiros, uma vez que a transmissão via web tem trechos em português, inglês e espanhol. Uma forma de dar voz, também, à miscelânia da cultura amazônica, que talvez os americanos quando chegaram, não tenham assimilado tão bem. E tirar Fordlândia do estigma de cidade-fantasma.
As cidades da Amazônia merecem mais iniciativas como essas, de radioativismo, utilizando a internet para chamar a atenção do planeta sobre cada história da floresta. Parabéns a iniciativa!
Acompanhe a Transmissão Fordlândia ao vivo - clique o link aqui.
Fotos: Angelo Madson/Idade Mídia
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