Johnny Indiano, o índio que fala inglês

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No Dia do Índio, uma pequena crônica, com um desses personagens que a gente tropeça em nossas vidas por acaso. Jonny Indiano (na foto ao lado, fotografando) é índio, e acima de tudo um brasileiro que convive com a natureza, recebendo turistas estrangeiros no Pantanal e com quem topei em uma viagem para uma reportagem da revista Viagem & Turismo.


Jonhny Indiano. Ou Piraputanga. Simplesmente, João e brasileiro


De cabelos negros e longos até a cintura, um índio que fala inglês, espanhol e um pouco de hebraico é seguido por um grupo de gringos mata adentro. Todos escutam um barulho assustador. São os bugios, macacos que andam em bando de árvore em árvore. Há um macho para cada grupo, e são eles que fazem essa arruaça. O índio pede silêncio e faz um som gutural encarnando um bugio. Curiosos, pouco a pouco os animais vão descendo dos galhos mais altos. Os gringos se deslumbram e o índio, em inglês, explica em voz baixa como é o estilo de vida desses macacos barulhentos.


João, índio terena de uma aldeia perto de Aquidauna (MS), era conhecido entre seus familiares como Piraputanga. Nome de peixe, que desliza rápido pelos rios do Pantanal. Encarnar animais como macacos e aves para atraí-los sempre fez parte de seu cotidiano, desde criança. Assim como andar quilômetros e quilômetros na imensidão dos campos pantaneiros, atravessar capões de mata e nadar em lagoas e baías infestadas de jacarés.


Virou Johnny Indiano por necessidade profissional. No fundo, acho que também por tiração de sarro com os estrangeiros que visitam (e valorizam) mais o Pantanal do que os brasileiros. Saiu da aldeia terena aos nove anos, conheceu o mar no Rio de Janeiro, trabalhou em várias cidades do Mato Grosso até descobrir que seu talento para andar no mato procurando bichos poderia lhe render uns trocados.


Há pouco mais de 20 anos os gringos descobriram o Pantanal como destino turístico. Para João, ou Johnny, como passou a ser conhecido, tanto melhor. A partir daí, não haveria mais a necessidade de ser peão e tocar boiadas, o que ele já fez muito nessa vida. Também não precisaria procurar emprego pra trabalhar das 8h às 18h, trancado num escritório. Nem tinha estudo pra isso. Seu escritório, daí por diante, seriam no meio do mato. Sem terminar o primário, aprendeu “de ouvido” outras línguas ao tentar se entender com os visitantes que guiava.


Poucos brasileiros fazem parte dos grupos guiados por Johnny-João nos campings improvisados em uma fazenda da região de Corumbá, também no Mato Grosso. Por esse motivo, ele passa dias sem falar português. Caminhando com água até a cintura em uma lagoa coalhada de trevos de quatro folhas, conversamos um pouco para matar a sua vontade de falar em sua própria língua, que ainda assim é a segunda (a primeira é a terena). Prometi que arriscaria um jogo na loteria assim que voltasse para a cidade, pois a visão de tantos trevos de quatro folhas só poderia ser sorte na certa. E não é que ele carregava no bolso um bilhete de aposta, pronto pra ser preenchido?


“Se você ganhar, compra um jipe e volta pra cá. A gente passa um mês andando por aqui e mesmo assim não consegue conhecer tudo o que eu já andei por esse Pantanal”, disse, sem nenhum vestígio de orgulho. Só constatou uma verdade.

2 comentários:

  • Vanessa dos Santos Nogueira disse...

    Olá Débora!!!

    Adorei o seu espaço..já add lá na minha lista!
    Postei alguns sites sobre o dia do indio lá no ciberespaço, tem um site da tripo do gruarana que está muito bom!

    Abraços,
    Vanessa
    http://ciberespaconaescola.blogspot.com/

  • Anônimo disse...

    Olá!. Eu apreciei ler seu artigo em Johnny Indiano. Eu estive no Pantanal alguns anos há e eu tive Johnny como um guia. Era uma grande experiência. De facto eu planeio retornar o próximo julho. Por toda a possibilidade, você tem o email, número ou algum detalhes de Johnny? obrigado e desculpe meu português mau. John Paul de Malta (jps@youjustliveonce.com)

 

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