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Reflexões sobre educação ambiental, comunicação e política

Vivemos um momento onde a preocupação com as questões ambientais ganha cada vez mais destaque. Exemplo disso é Prêmio Nobel da Paz deste ano, dividido entre o americano Al Gore e o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne três mil cientistas e especialistas discutindo aquecimento global. Para o comitê do prêmio, eles foram reconhecidos pelo esforço em "construir e divulgar um maior conhecimento sobre a mudança climática causada pelo homem e por fixar a base das medidas que são necessárias para resistir a essa crise”.

Enfrentar questões complexas como as mudanças climáticas e outros temas que marcam a problemática ambiental que o planeta vive é o maior desafio da educação, lembra o professor da Faculdade de Educação da USP, Pedro Roberto Jacobi. Sua fala abriu do debate Perspectivas e Caminhos da Educação Ambiental em São Paulo, organizado pela faculdade de Gestão Ambiental da USP em seu campus na zona Leste da capital.

“As discussões sobre educação ambiental passam pela reflexão sobre como formar pessoas preparadas para se antecipar aos riscos socioambientais”, avisou o professor, indicando que as práticas educativas e propostas pedagógicas nas escolas devem promover a conscientização, a mudança de comportamento e de atitudes, o desenvolvimento de competências e o estímulo ao protagonismo.

Trata-se de uma questão que já defendi em outros momentos aqui no blog: a formação de um educador ambiental, dentro ou fora da escola, vai além de um curso de biologia. Ou de propostas de arte-educação envolvendo brinquedos feitos com sucata. A meta ideal é: um educador que vire sujeito-pesquisador, estimulando seus alunos a pensarem sobre a complexidade das questões ambientais dentro de um contexto social e econômico. E, mais ainda, inspirando-os a serem co-responsáveis e a participarem, individual e coletivamente, na busca de soluções para nossos problemas.

Participando através da política
A pedagoga, articuladora da Rede Paulista de Educação Ambiental (
www.repea.org.br) e uma das coordenadoras da ong Cinco Elementos (www.5elementos.org.br), Patrícia Otero, apresentou a proposta da Política Estadual de Educação Ambiental (PEEA), que está em trânsito na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo e em processo de consulta pública em várias instâncias estaduais.
Vou falar sobre a Repea e a Política em um outro momento. Mas destaco, na fala da Patrícia, dois conceitos embutidos: participação da sociedade nos processos de decisão e de construção de políticas.

A PEEA foi construída coletivamente, através de encontros, reuniões e até de contatos via internet com sugestões para o texto da lei que deve organizar e orientar a educação ambiental no estado. Educadores, especialistas e o próprio estado tiveram a oportunidade de dar corpo a essa lei, num processo que com certeza foi caótico em muitos momentos, mas teve a contribuição de muita gente interessada na difusão da EA.

A palavra-chave de que comentou o professor Jacobi, participação, estimula as pessoas a acreditarem que é possível enfrentar os problemas socioambientais. E ainda fortalecer o conceito de cidadania, tão esquecido em tempos onde a corrupção não sai das páginas dos jornais.

Para os educadores, fica a lição: estimule atividades participativas onde seus educandos, seja dentro ou fora da escola, poderão atuar de forma ainda mais significativa no enfrentamento das crises e na busca de soluções. Oficina de reciclagem? Vale. Mas não seria ainda mais interessante tornar a coleta seletiva uma realidade no bairro, na cidade?

Comunicação: dentro e fora do jornalismo
Patrícia ainda lembrou dos dados de um diagnóstico realizado pela Repea em 2003, junto a educadores ambientais. Uma das principais demandas desses educadores: informação.

Vimos o Nobel premiando grupos de pessoas que atuam pela divulgação de informações sobre mudanças climáticas. E um número cada vez maior de reportagens sobre esse e outros temas. Ainda assim, educadores reclamam do excesso de informações confusas ou divulgadas de maneira errônea. Outros afirmam que não há espaço para temas de educação ambiental na grande mídia.

Vejo aqui um “ruído na comunicação”. Como jornalista, reconheço as deficiências de um meio que prioriza determinados assuntos nas páginas de um jornal. Mas vejo, também, o esforço positivo de alguns colegas em dar espaço para as questões ambientais de forma clara e positiva. As reportagens de denúncia ainda são importantes, embora em número reduzido; mas esse foco vem mudando para um tipo de reportagem com objetivos mais amplos, de orientar – educar – para a sustentabilidade.

Muitas ongs e instituições públicas ainda não entenderam esse momento que a mídia está vivendo, e não conseguem “tirar proveito” disso. Uma das formas de conquistar os jornalistas é promover oficinas e seminários temáticos, onde eles terão oportunidade de se capacitarem. E é uma chance, também, para fortalecer laços com jornalistas que realmente valem a pena.

Também precisamos de educadores ambientais (e conseqüentemente, projetos de educação ambiental) que priorizem a “educação através comunicação” como uma de suas principais metas. Gente preocupada com a acessibilidade de sua linguagem, motivada a se fazer entender e a engajar pessoas. Gente que reflita sobre os materiais que preparam para divulgação, de folhetos a livros e videos, e se perguntem: “estou realmente trazendo informação motivadora para o público que desejo enviar esse material?”.


Como disse o professor Jacobi, não dá para simplificar a complexidade dos temas ambientais. Mas é preciso “traduzir” através de palavras e ações, para envolver a sociedade definitivamente numa causa que não é uma moda passageira. Pensar sobre meio ambiente é agora uma necessidade básica de sobrevivência...

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