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Saiu no site Brasilianas. É de se pensar... pois só se fala no lado positivo da internet, mas se esquece de um reflexo de nossa educação sobre as novas tecnologias - você pode ter a melhor banda larga e o melhor computador, mas será que isso garante difusão de conhecimento e, mais ainda, conteúdo produzido pelo próprio cidadão?

Por Lilian Milena
A internet ajudou a revolucionar o jornalismo a partir da produção colaborativa de matérias. Durante a oitava edição do Fórum Brasilianas.org, Francisco Madureira, pesquisador da Escola de Comunicação e Artes da USP e gerente de Projetos de Conteúdo do UOL, apontou os portais Wikipédia e CMI (Centro de Mídia Independente) como exemplo de Conteúdo Gerado pelo Usuário, do inglês User-Generated Content (UGC).

A internet tem o poder de transformar a sociedade tornando o individuo mais participativo – não só melhorou o acesso à informação, como deu condições para produção e publicação de conteúdos realizados por qualquer um.
Agora, a chamada sociedade pós-moderna tem como desafio viabilizar a construção de novos processos a partir do imenso quebra-cabeça formado pela enxurrada de informações que alimenta a rede mundial de computadores. O Jornalismo Colaborativo é apontado pelo pesquisador como uma dessas saídas, pois parte do princípio que qualquer cidadão pode ser jornalista. "É uma das formas mais autênticas da liberdade de expressão, da inclusão digital e da democracia corretamente implantada", completa.

Um dos principais ícones internacionais de jornalismo colaborativo apresentado por Madureira é o portal sul coreano OhmyNews, que começou com 54 jornalistas e hoje conta com 70 mil colaboradores dentro do país, 6 mil na versão internacional do portal, com produção de 150 notas e materiais informativos por dia.

“Uma equipe reduzida de editores fica responsável por receber e validar as matérias que os repórteres enviam. Quanto mais matérias validadas o repórter tem, mais credibilidade ganha. Esse é um mecanismo que garante a seguridade das matérias”, explica. Em 2009, o portal sul coreano era o 30º mais acessado no país.

Segundo o pesquisador, essa ação aponta para um amadurecimento do papel do jornalista que passa a ser o moderador e direcionador de conteúdo, não mais o porta-voz da sociedade, incorrendo ao risco de definir o que ela pode ou não ter acesso.

OVERMUNDO e CMI são exemplos de sites de jornalismo colaborativo no Brasil. Madureira destaca que a internet no país alcançou a qualidade de mídia em massa, diferente do que ocorre em países como Estados Unidos e Coréia do Sul, onde o acesso da rede mundial ainda é muito caro para populações de baixa renda.

Em contrapartida, temos baixa produção de UGC, ou seja, os brasileiros são campeões de conteúdos produzidos em sites de relacionamento como Orkut, mas está longe de contribuir para a produção de materiais informativos.

“Existe um certo grau de interatividade desse leitor no jornal, passando para o usuário da internet que faz alguns comentários em sites de notícia, que passam pela aprovação de alguém que cuida do portal. Mas, na verdade, o internauta brasileiro está, ao menos nos grandes portais, no primeiro degrau do interator”, termo criado para designar o indivíduo que participa ativamente da construção da rede de informações. “O que tenho, ainda, são poucos emissores para muitos interlocutores, inviabilizando o diálogo”, ressalta Madureira.

O pesquisador estabelece um paralelo entre o que acontece com a internet e o sistema educacional, usando a teoria desenvolvida por Paulo Freire, autor da Pedagogia do Oprimido. Freire coloca que a pedagogia tradicional é uma atividade dissertadora, que prescreve ideias e não privilegia a troca de conteúdos – o diálogo favorece a interiorização do conhecimento.
Madureira cita o termo "educação bancária", utilizado constantemente por Freire para se referir ao sistema educativo que consolida a divisão entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem e, consequentemente, entre os opressores e os oprimidos.
Dessa forma, Madureira propõe discutir hoje o Jornalismo do Oprimido. “Enxergo a inclusão como uma forma de aumentar meu campo de visão sobre o mundo. A tecnologia deve me ajudar a me enxergar no espelho. Um norte-americano, por ter acesso maior e melhor à educação e a equipamentos tecnológicos, pode conseguir se expressar de forma mais refinada que um brasileiro nesses veículos. Entretanto, são veículos desenvolvidos por eles e absorvidos por nós. Precisamos desenvolver também nossa própria forma de produzir e mediar conteúdos. O twitter enxerga o mundo com 140 caracteres, por exemplo, essa é a visão brasileira?”, conclui.

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