Ao Sul da Fronteira e tupinambás: pensando a intenção da notícia

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Duas visões sobre a mídia e a construção do pensamento das pessoas convidam a pensar no quanto é possível manipular a opinião pública, seja quando se expressa claramente uma opinião desfavorável, seja omitindo parte dos fatos - e não sei qual dos dois é pior.

No documentário Ao Sul da Fronteira, do cineasta Oliver Stone (assista o trailler clicando aqui), a reflexão é sobre o quanto as lideranças da América Latina tentam não se esquivar perante a hegemonia norte-americana. Mais ainda, o filme tenta mostrar o quanto os Estados Unidos - com uma mídia claramente favorável às políticas internacionais da Casabranca - mostram o presidente da Venezuela Hugo Chavez como ditador e inimigo público número 1.

Postura essa que, no Brasil, é reiterada especialmente pela revista Veja, da Editora Abril, a qual se utiliza de termos de baixo calão para incriminar presidentes, movimentos sociais, ongs, tudo o que vai contra o status quo. Vale lembrar: quem está fora desses ambientes muitas vezes conhece a realidade apenas pela mídia. No caso dos Estados Unidos, idem: milhares de americanos entendendo a América Latina pela ótica da CNN, do New York Times e muitos outros veículos de comunicação.

Enquanto isso, na Bahia, vive-se em proporções menores uma situação que reflete o quanto é difícil confiar na imprensa como fonte de informações. Em Ilhéus, a irmã de uma liderança dos índios Tupinambá foi presa, acusada de "extorsão e formação de quadrilha", segundo notícia do jornal baiano A Tarde.
Ela havia acabado de chegar de Brasília onde, ainda segundo a notícia deste jornal, "teria entregue um documento ao presidente Lula pedindo providências para os tupinambá da Serra do Padeiro, região Sul da Bahia, cuja liderança, o cacique Babau, foi preso há semanas (leia sobre o assunto licando no site do Conselho Indigenista Missionário, o CIMI).

Ora, perseguição a quem causa conflitos nos movimentos sociais é comum em nosso país, e os índigenas, quando organizados, não deixam barato mesmo. O jornal A TARDE foi absolutamente infeliz nessa matéria desde o título - Irmã de cacique "Babau" é presa por extorsão e formação de quadrilha, que nos induz a entender o que? No mínimo que a tal irmã é assaltante ou traficante de drogas... e infelizmente esse é o lado sórdido da imprensa que me dá vergonha de ter diploma de jornalista, já que somos orientados na maioria das vezes, a expôr as pessoas em títulos, em textos, em fotos, de forma a construir um julgamento na cabeça das pessoas em pouquíssimas linhas.

É só lendo a reportagem, lá no final, que entendemos: a prisão dela foi decretada pelo juiz de Buerarema, sua cidade de origem, porque o juiz entendeu que ela participou de uma ação contra a Coelba, empresa do governo baiano responsável pela energia elétrica no Estado. Liderados por seu irmão, os indígenas de uma comunidade apreenderam um caminhão e teriam feito reféns funcionários terceirizados pela empresa, segundo o jornal.

Vamos agora ao site do CIMI, uma fonte de informações totalmente diferente da imprensa convencional, e que de forma, claro, parcial, se posiciona contra o que consideram uma perseguição aos tupinambás. Trazem uma foto de Glicéria que mostra, ela realmente esteve com o presidente Lula (reproduzi a foto logo acima).

Só que tanto essa notícia quanto a anterior não esclarece, de forma mais objetiva, a razão, por exemplo, da prisão do líder Babau, como fez o jornal, alegando a história da Coelba. Aí eu pergunto: esqueceram de citar isso? Ou o que rolou com relação a empresa de energia elétrica não foi bem assim?

Não estou tirando a legitimidade da causa tupinambá, mas questionando os veículos de comunicação, sejam convencionais, sejam alternativos, que não disponibilizam informações suficientes para que façamos a nossa escolha na causa. Somos manipulados sem o nosso consentimento. O que nós resta é ficar sempre com pé atrás e dar o recado as ongs, movimentos sociais e veículos de comunicação comunitária: se querem conquistar pessoas para suas causas justas, precisamos saber fazê-lo, pois concorrer com a imprensa profissional de massa e cheia de recursos pra nos persuadir é grande.

Omitir informação é pior; mais vale nos explicar, e deixar a nosso critério escolher - ou não - imaginar Hugo Chavez e Babau como lideranças que navegam contra a maré de injustiças sociais.

1 comentários:

  • Gustavo Garotti Scandiuzzi disse...

    Olá amigos, vem aí a 2ª Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB). As inscrições acontecem de 1 de junho a 6 de agosto.
    Se puder, nos ajude a Divulgar! =D
    A Olimpíada, composta por cinco fases online e uma presencial, é destinada a estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e demais séries do ensino médio, de escolas públicas e privadas de todo o Brasil.
    Para orientar a equipe, formada por três estudantes, é obrigatória a participação de um professor de história.
    A Olimpíada começa no dia 19 de agosto, dia nacional do historiador, data que celebra o nascimento e o centenário da morte do jornalista e historiador Joaquim Nabuco.
    A iniciativa é do Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2009, a ONHB inscreveu mais de 15 mil participantes e reuniu cerca de 2 mil pessoas na final presencial.
    Mais informações acesse o site “www.mc.unicamp.br”

 

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